Blogs Alucinados


Josephine


Eu poderia descrever melhor o rumo que meu blog vai tomar, mas... afinal, quem sou eu mesmo?



Sexta-feira, Abril 25, 2008

Encontram-se as três irmãs perdidas na floresta: (*)

- Nde stamos, Síncope?

- Q'ria eu s'ber, Aférese. Alg'ma idéia, Apócope?

- Nem t con...


(*) Florestas são um desses lugares paradoxais onde você pode ver-se perdido ao se encontrar num deles.

postado por: EDMUND BONAPARTE 9:05 PM






Sábado, Novembro 03, 2007

Voltei. Eu acho.

Vou sair e confirmar se minha volta é real ou somente mais uma alucinação. Farei isso, confirmar minha volta, com uma certa freqüência a partir de agora, pois não é bom que haja reviravoltas em minha volta. Fico tonto com isso.

Até a volta, então.

postado por: EDMUND BONAPARTE 8:01 PM






Domingo, Dezembro 17, 2006

GRANDE DOMINGO...

postado por: EDMUND BONAPARTE 11:22 AM






Segunda-feira, Setembro 25, 2006

A Anatomia De Uma Desaparição

Descobri que sou um sujeito muito sujeito. Sujeito a sumiços, desvanecimentos, eclipses, evaporações, influências (internas e externas), inconformismos (e porque não incluir alguns conformismos também), e a toda a sorte de sorte e azares, sejam eles reais ou imaginários.

Pus-me a imaginar esses dias (sim, é inevitável, eu sempre imagino coisas) o que seria de mim se eu não existisse. Descobri, a princípio, que se eu não existisse, minha não permanência no mundo das coisas provavelmente faria com que eu não me importasse com a resposta dessa pergunta e, portanto, nunca a faria, mesmo que fosse possível nessas circunstâncias.

A fim de colocar um término nesse paradoxal estorvo, supus então que eu não existisse, mas, que de alguma forma, eu possuísse o mínimo de consciência para tomar consciência da falta de consciência que minha inexistência me proporcionasse.

Examinando os resultados de meu imaginário e controlado experimento pseudobiopsicosociocientífico, pude concluir que minha experiência concreta de inexistência vivida seria, antes de tudo, muito vazia, principalmente para mim. Descobri que estar ausente seria tão desmotivador que se não descobrisse uma forma de fazer algo concreto entraria em total estado de catatonia, ficando assim completamente alienado como se nem existisse, mesmo que de fato não existisse.

Sequioso por avaliar minha experiência no limite da praticidade, meditei profundamente por várias horas no objetivo de retirar qualquer traço de matéria de mim mesmo. Estava decidido a me tornar consciência pura e avaliar minha proposição inicial. Passei então a andar pelas ruas apresentando uma completa falta de influência de minha pessoa para com o mundo, deixando que os indivíduos passassem por mim como se fosse nada mais que ar.

Tristemente devo constatar que não obtive muita colaboração dos inúmeros transeuntes pelos quais passei (ou não passei), pois se embirraram todos e se concentraram em atrapalhar meu experimento, colidindo violentamente contra meu inexistente corpo, vezes arremessando-me longe, vezes sendo arremessados, numa completa, absurda e irracional falta de espírito científico. Os automóveis então, é melhor que nem se comente.

Resolvi então testar minha teoria à noite, quando o números de pedestres nos passeios públicos e automóveis nas ruas e avenidas diminuem drasticamente. Entendi mais tarde que a aparente vantagem de se estar sozinho e não sofrer interferências de terceiros dissipa-se rapidamente quando você percebe que sem os referidos terceiros não há experimento. Mas nesse momento já era tarde para voltar atrás. Resolvi então ir em frente. (*)

Após alguns minutos a andar pela rua deserta, observei que havia algumas pessoas em uma viela próxima. Uma chance de testar minhas proposições, pensei eu. E mais uma vez a decepção quando três meliantes fortemente armados e profundamente embrutecidos pela vida marginal que levavam, friamente ignoraram minha incorporeidade e puseram-se a me destituir de meus pertences imateriais, atirando-me com violência dentro de um container de lixo após o assalto, provando definitivamente que é impossível se fazer ciência de ponta em um país de terceiro mundo.

Voltei para casa e, enquanto me recuperava de meu recente trauma urbano com uma nutritiva canja e um merecido descanso em minha poltrona favorita (única, por sinal), convenci-me de que jamais satisfaria a curiosidade acerca de minhas teorias enquanto houvesse tanta gente retrógrada atravancando o progresso. Apesar de tudo, não reclamo. Procuro olhar o lado positivo de todas as situações, e assim pude comprovar que, de fato, canja de galinha faz muito bem para a saúde, caso você não seja a galinha, é claro.



(*) Coisa que parece pequena, o simples "ir em frente". Mas tal gesto carrega em si um grande significado e uma profunda virtude, principalmente ao se considerar que mesmo o mais virtuoso dos caranguejos só anda de lado.

postado por: EDMUND BONAPARTE 3:16 AM






Segunda-feira, Março 20, 2006

Mais uma vez a páscoa está quase aí. E junto com ela, seus terríveis coelhinhos

Que medo...


postado por: EDMUND BONAPARTE 5:33 PM






Domingo, Outubro 16, 2005



A Grande Questão

Um indivíduo claramente confuso e extremamente questionador, enviou-me um e-mail com uma pergunta bastante abrangente. Como alguém me disse que esta é uma dúvida que assola grande parte da humanidade, resolvi publicar aqui minha resposta, esperando que ela amplie os horizontes de quem ainda turba sua alma com esta secular questão:

- Por que a galinha atravessou a rua?

Infelizmente não dá para responder essa questão sem levar em conta o contexto exato desse acontecimento. Se eu fizer, ficará somente na mera especulação.

Só essa frase, isolada, pode nos levar a inúmeras interpretações, conforme a idéia pré-concebida que temos da galinha. Acabaríamos por ficar julgando a pobre ave conforme os nossos próprios entendimentos, o que certamente não é algo bacana para se fazer com uma espécie já tão vilipendiada ao longo dos milênios.

O sujeito que menospreza as galinhas e as considera acéfalas, teria imaginado a ave atravessando a rua por suas próprias pernas para ser atropelada logo em seguida, sofrendo o destino que ele julga que de toda a galinha merece. Um sujeito comilão teria visto o galináceo atravessando a rua em desespero, fugindo do cozinheiro que o desejava assado no forno. Um indivíduo deprimido, teria suposto que o emplumado ser atravessou a rua porque não via mais sentido naquele lado onde estava. Um sujeito devasso teria imaginado a galinha atravessando a rua para se encontrar com os galos do outro lado e cair na farra. E assim por diante.

Enfim, sem um contexto, só mesmo a galinha sabe com certeza porque raios ela acabou atravessando a rua.

Ou talvez nem ela.


Ps: Espero ter sido espantosamente esclarecedor em minha resposta.

postado por: EDMUND BONAPARTE 2:46 PM






Sábado, Outubro 01, 2005

O Desarmamento

Segundo fui informado - sim, ultimamente, e para minha vergonha, tenho andado muito desinformado -, o plebiscito que se realizará no dia 23 de Outubro não terá como objetivo somente a votação de "sim ou não" ao desarmamento, mas se somos a favor ou contra a aceitação integral do código que regulamenta o comércio e o uso de armas de fogo no território nacional.

Mais especificamente, o referendo dirá se somos a favor ou não do artigo 35 da Lei nº 10.826, de 22 de dezembro de 2003, popularmente chamada de "Estatuto do Desarmamento". E como tal, essa Lei é repleta de capítulos, seções, artigos, parágrafos e outras entidades místicas que podem ou não trazer consigo terríveis vilanias ou dadivosas benevolências ao finalmente interagirem com fração até então adormecida.

Embora a experiência única que é morar no Brasil me leve a crer na primeira opção (terríveis vilanias), devo admitir que ainda não li o mencionado código, tampouco o latente artigo - terrível pecado do qual tratarei de me penitenciar o mais brevemente possível - e, portanto, todo julgamento que eu fizer nesse momento poderá estar irremediavelmente afetado pela minha desmedida ignorância.

É extremamente provável que depois que eu o leia, ainda assim continue desmedidamente ignorante sobre suas reais seqüelas. E que tal situação não afete somente a minha pessoa, mas que seja uma onda coletiva. E se for assim, tal ignorância será remediada unicamente pelo tempo, quando então nos serão revelados os maravilhosos avanços ou os pestilentos retrocessos sociais, frutos das implicações da nossa escolha. É igualmente possível que acabe tudo no zero a zero, mas deixo essa opção para quem venha a se sentir mais confortável na coluna do meio.

Portanto, pensemos bem no que vamos fazer no dia 23. Ou não, pois quem, com certeza, pode afirmar o que é melhor?

Em todo o caso, para os penitentes como eu que desejam esmiuçar as linhas do contrato antes de assiná-lo, aqui está o link para o código.


Alucinadas saudações a todos e a lembrança de que a Austrália ainda é uma boa opção.

postado por: EDMUND BONAPARTE 8:36 PM






Sábado, Setembro 10, 2005




João Da Caatinga E O Pé De Feijão (Uma versão Da Antiga Fábula, que, se não tinha nexo, muito menos o tem agora)


Na infância, em algum lugar tórrido do sertão nordestino, João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, bisneto de Pedro, o lavrador (a assim ad infinitum), era uma criança muito curiosa. Analisava as potencialidades de todas as coisas que suas desmioladas mãozinhas conseguiam alcançar.

(É interessante ressaltar aqui que, até onde consta ao autor da fábula, todas as mãos são, de fato, desmioladas, sendo que essa expressão foi usada com o único objetivo de esclarecer que as pequenas mãos de João estavam coladas a um corpo cujo cérebro não parecia funcionar da maneira mais adequada. Mesmo porque ter miolos nas mãos deve ser algo bastante desagradável, principalmente no frio ou quando o indivíduo acidentalmente martelar um dedo.)


Feito esse E.E.E.(Esclarecimento Espantosamente Esclarecedor) voltemos à fábula novamente, ainda mais se considerarmos que o custo atual de produção de uma fábula é uma fábula


Certo dia, então, João, o futuro lavrador, vislumbrou em cima da estante de Cícero, o lavrador,seu velho pai, um saquinho de couro amarrado com um laço vermelho. Imediatamente o misterioso receptáculo tornou-se objeto de desejo do infante delinqüente.

No saquinho encontravam-se quatro grãos de feijão mágico importados da china por uma ninharia e trocados pela cabra da família.

Cícero, o lavrador, pai de João, o futuro lavrador, queria seguir os passos de seu pai, Lourival, o lavrador (que seguiu, por sua vez, os passos de Pedro, o lavrador, bisavô de João, o futuro lavrador), e incrementar a roça da família, de modo que João, o futuro lavrador, pudesse passar para seu filho, "seja qual fosse o nome dele", o lavrador, colheitas mais fartas, podendo inclusive vender o excedente na feira pública do miserável lugarejo, dando, enfim, sentido ao título de "lavradores", que a família a tanto usava, mas que na prática não praticava, embora na teoria, teorizasse.

Assim, em sua rural lógica, a cada ano, a desventura deles diminuiria, e, quem sabe, um dia eles poderiam parar de comer sopa de calango e passar a comer suculentas buchadas de bode.

Mas dona Maria, mãe do então pequeno João, o futuro lavrador, esposa de Cícero, o lavrador, nora de Lourival, o lavrador, ao saber da bizarra troca, enfureceu-se. E do alto de seu metro e meio esbravejou:

- Ô, Seu fio di um bódi! Cabra safado! Cê trocô nossa cabrinha por esses punhado di feijão perebento! I agora como é que vâmo dá di cumê pros nosso doze fio, seu cabra safado? Mas cê é mesmo um jegue, Cíço!

Cícero, o lavrador, filho de Lourival, o lavrador, pai do João, o futuro lavrador, somente escutava e meditava na provável besteira que havia feito.

Enquanto isso, João, o futuro lavrador, aproveitando-se da bagunça que se instaurou, subiu sorrateiramente a instável e rústica estante e, esticando-se ao máximo, alcançou o saquinho dos feijões.

Desceu dali como uma cabra montanhesa, abriu a pequena bolsa de couro e imediatamente passou a brincar no chão com os quatro feijões.

Um, no ato, ele arrebentou com uma queixada de jumento. Outro ele tocou pela janela, sendo imediatamente devorado por um urubu (em tempos de crise urubu come até feijão mágico).

O terceiro foi salvo por Cícero, o lavrador, filho de Lourival, o lavrador, em cima da hora, pois João, o futuro lavrador, já se preparava para engoli-lo.

Cícero ainda procurou pelo quarto feijão mágico em toda a casa (coisa que não foi difícil, já que era minúscula), sem sucesso.

- Óh, xente! I agora, meu Padimpadiciço? Joãozinho estropiô com os feijão! Sobro só unzinho!!! ¿ Descabelava-se Cícero, o lavrador, filho de Lourival, o lavrador, neto de Pedro, o lavrador, e pai de João, o futuro lavrador e atual peso morto e meliante da casa.

Dona Maria, esposa de Cícero, o lavrador, nora de Lourival, o lavrador, e mãe de João, o futuro lavrador, aproveitou a cena para descer ainda mais a lenha na cabeça de seu marido.

Após muito ouvir, mas ainda esperançoso, pegou o único feijão que lhe restara e o plantou no seco solo, regando-o de esperança, porque água não havia mesmo.

Obviamente não nasceu, pois, segundo o manual internacional de plantio de feijões mágicos, publicado pela editora Vadirretro e distribuído fabulosamente bem (o qual Cícero, o lavrador, filho de Lourival, o lavrador, neto de Pedro, o lavrador, e pai de João, o futuro lavrador, obviamente não leu, já que era genealogicamente analfabeto), tais leguminosas encantadas precisam de muita umidade para germinar, coisa que foi devastadora para a família, já que ficaram sem os feijões e sem a cabra. Tais acontecimentos foram quase tão malignos, nefastos e perniciosos quanto os políticos da região.

Todavia, como tudo se ajeita quando nada se rejeita, bastou Cícero, o lavrador, mandar quatro irmãos de João, o futuro lavrador, para que trabalhassem quebrando pedras para o explorador de trabalho infantil mais próximo que a situação voltou para como estava antes, bem ruim, porém sobrevivível.

Mas os anos passaram, e João, o futuro lavrador, tornara-se enfim João, o lavrador, dono de seu próprio pedacinho de terra seca, em outro canto daquele interminável despovoado.

Sua roça, miserável como foram as de seus ancestrais, agora ao menos era sua. Certamente isso pouco significava naquela terra ressequida, mas João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, e bisneto de Pedro, o lavrador, era dono de uma esperança sem limites e de uma teimosia forte como a das mulas.

E tão louca era sua teimosia, e tão ilimitada era sua esperança, que todos os dias ele aguardava pela chuva, redentora chuva que iria lavar seu solo e sua alma e lhe remiria dos anos de sofrimento e penúria.

É bem verdade que João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, e bisneto de Pedro, o lavrador, somente havia visto a chuva uma vez em sua vida, alguns meses antes de Cícero, o lavrador, seu pai, ter adquirido os feijões mágicos, que tão diligentemente seriam destruídos alguns minutos depois.

De lá para cá (ou de cá para lá, já que o efetivo tempo é o mesmo de trás para frente ou de frente para trás) João, o lavrador, somente via água no poço (e de vez em quando, pois estava quase sempre seco) e em uma fotinho de calendário, que ele costumava pendurar em um prego enferrujado preso nas rachaduras da parede de barro. Era nessa foto que João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lorival, o lavrador, bisneto de Pedro, o lavrador, fixava seu olhar sonhando com aquele mundo d'água que certamente viria a cair um dia.

E um dia, finalmente, a chuva veio. E veio muito maior do que todas as que costumavam povoar os loucos sonhos de João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, e bisneto de Pedro, o lavrador. Choveu tanto e por tanto tempo que o sertão quase virou mar e o mar quase virou sertão. E João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, bisneto de Pedro, o lavrador, pulava de felicidade e se atirava em cada poça que encontrava pela frente.

E por dias foi somente o que João, o lavrador, fez. Quando por fim a chuva parou, o céu abriu e o sol novamente brilhou, todas aquelas sementes que João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, havia esperançosamente semeado por fim brotaram, e a alegria novamente habitou no seu nordestino coração. E quando a noite por fim chegou, João, o lavrador, leve como uma criança, adormeceu.

Porém João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, bisneto de Pedro, o lavrador, não sabia que o último e desaparecido feijão mágico não havia sido efetivamente perdido. Ah, isso não. João, o lavrador, havia, isso sim, o enfiado no ouvido. Sim, no ouvido. E tão fundo havia João, o lavrador, o enfiado no referido orifício que ali permaneceu por todo esse tempo, hibernando.

A secura do lugar impediu que o feijão mágico germinasse, e esse ficou inerte até que a chuva e os banhos nas poças que João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, e bisneto de Pedro, o lavrador, tomou despertaram o fabuloso grão.

E naquela noite, enquanto João, o lavrador, dormia tranqüilamente, o mágico vegetal brotou de seu ouvido, serpenteou por seu corpo, chegou ao chão e se enraizou.

Continuou então crescendo noite adentro, erguendo João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, bisneto de Pedro, o lavrador, até às nuvens.

Quando amanheceu, João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, e bisneto de Pedro, o lavrador, de tão atado, mal conseguia se mover. Pegou sua peixeira com o restinho de liberdade que sobrou em sua mão direita e, ainda sem entender o que acontecia, cortou os ramos que o seguravam e arrancou o resto do pé de feijão de sua cabeça, voltando a ouvir estereofonicamente (João, o lavrador, sempre pensou ser surdo daquele ouvido, coisa que pouco lhe importava até então, visto sempre ter sido muito cabeça dura e nunca ter dado ouvidos a ninguém).

Quando se viu livre, pôs-se a olhar ao redor, tentando compreender sua situação. Olhou para baixo, viu sua minúscula propriedade e um enorme pé de feijão que subia até às nuvens. Olhou para frente e, vendo um descomunal castelo sobre as nuvens, disse:

- Ai, meu Padimpadiciço! Eu num divia tê cumido toda aquela panela di macaxera antis di durmi.

Apesar do medo, e sem entender direito como tudo aquilo estava acontecendo, João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, e bisneto de Pedro, o lavrador, resolveu dar uma olhada dentro do castelo e averiguar se realmente existiam gigantes e galinhas que botavam ovos de ouro, conforme se lembrava das histórias que sua mãe, Dona Maria, esposa de Cícero, o lavrador, nora de Lourival, o lavrador, havia lhe contado na infância. Enquanto se dirigia para a entrada, ficou um tanto perturbado com a situação na qual se encontrava:

- Vixe! Tô pisando nas nuvi e num caio? Cumé qui pódi isso? Isso não pódi não!

E, nesse mesmo instante, João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, e bisneto de Pedro, o lavrador, despencou lá de cima feito uma pedra e só não se estatelou no chão porque na queda se agarrou nas patas de um carcará que voava mais abaixo e ambos caíram num pequeno açude que havia se formado com a chuva. E, embora tenha se machucado muito, conseguiu se arrastar para fora d'água. E ali na margem se deitou.

Ficou ali por horas, fitando a nuvem na qual havia estado e, por fim, emendou:

- Por que diacho eu mi arrebentei aquimbáxo i aquela pesti di castelo inda tá lá dipendurado?

Alguns instantes depois, João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, e bisneto de Pedro, o lavrador, foi soterrado por milhares de toneladas de pedra.



Moral: Se a fé pode mover montanhas, então a dúvida pode fazê-las desabar sobre sua cabeça.


Obs: Com o tempo pode-se até esquecer dessa fábula (o que não seria nada ruim), mas com certeza não se esquecerá da árvore genealógica de João, o lavrador, filho de Cícero, o lavrador, neto de Lourival, o lavrador, bisneto de Pedro, o lavrador, e por aí vai Caatinga afora (ou adentro, sei lá).

postado por: EDMUND BONAPARTE 12:41 AM






Quinta-feira, Setembro 01, 2005

Como É Triste A Incompreensão

A cada dia que passa compreendo menos as pessoas. E a sensação que isso diariamente causa é tão desagradável que me fez, recentemente, pensar em não compreender nada, nunca mais.

E tal atitude me pareceu muito compreensível, mesmo não devendo ser, já que eu queria descompreender de tudo. Dessa forma incompreensível, sabotei a mim mesmo no que prometia ser a minha mais substancial revolução interna.

E tudo isso começou porque me disseram, certo dia, que nada está certo nesse mundo. Se realmente é desse modo que as coisas funcionam, ou não funcionam, até o que parece estar certo está errado, de maneira que o que parece errado e que você sabe que está errado, deve estar certo. Se não for assim, você estaria certo do erro de algo que certamente não é certo, de forma que sua certeza precisaria estar errada, mesmo estando certa.

Enquanto meditava sobre isso, comia batatas fritas tremendamente gordurosas e passava mal, pois frituras não me fazem bem, o que era uma certeza minha, dessa forma, ela deveria esta errada para que nada no mundo estivesse certo e, então, a teoria se provasse.

Descobri na prática que ela estava errada. Ou que eu não havia a compreendido bem.

Fui ao médico e desconfortavelmente relatei meu desconforto. Posso dizer que foi uma consulta bem desconfortável, pois bastou eu dizer que comer fritura não me fazia bem que ele me sugeriu:

- Então vamos a Bolila?

Quem ele pensa que é para perguntar se eu quero ir a Bolila? Um agente de viagens? E quem disse que eu gostaria de ir a Bolila com ele? Quem disse que eu sei onde fica Bolila? Onde Bolila entra nessa história? Senti-me falando com um lunático, e sei bem o que digo, pois falo comigo mesmo freqüentemente.

Saí de lá com azia. É bem verdade que entrei lá com azia também. Mas enfim, minha consulta foi totalmente vazia de significado. O que, de fato, não significou nada para mim.

Reclamei com as pessoas sobre isso tudo, sobre essa ausência de sentido nas coisas que as pessoas teimam em me dizer, enfim, de tudo.

Então me dizem que eu não deveria fazer generalizações. Como assim generalizações? Agora me acusam de autoritário? Nem soldado raso eu sou, quanto mais um general. Se ao menos eu tivesse feito o CPOR, poderiam me acusar de fazer tenentizações, o que seria mais lógico, embora fora da hierarquia de pensamento que eu estava tentando estabelecer no momento.

Eu poderia dizer que estava prestes a ficar louco com tudo aquilo, caso já não fosse. Mas o que eu posso esperar de um mundo onde a coisa mais exata que existe é a matemática, e ela é cheia de números irracionais e imaginários?


postado por: EDMUND BONAPARTE 10:03 PM






Sexta-feira, Abril 08, 2005

Diretamente Do Nosso Departamento De Mitos Científicos E Alegorias Pesquisadas:

"FÁBULAS ALUCINADAS"

O Homem Que Queria Um Nobel


Dia desses Amadeu acordou com uma vontade desesperada de ganhar um prêmio Nobel. Assim, bem simples.

Podia ser um de física, talvez química, quem sabe literatura, e até (e por que não?) de medicina! "Afinal, as doenças estão aí para serem curadas!" - pensava ele. Mas a verdade é que Amadeu se contentava até com um Nobelzinho de economia, daqueles que todos esqueceriam mais tarde.

E deste modo, com uma disposição hercúlea para o trabalho, acordou com o pé esquerdo (*) e se pôs a encontrar um assunto no qual pudesse se envolver completamente. Começou pensando em desenvolver uma teoriazinha bem básica, uma que unificasse todas as teorias físicas existentes, uma "teoria da unificação universal".

"Acho que esse trabalho vai me consumir algumas horas" - pensou Amadeu - "Mas como eu não tenho muita coisa pra fazer nessa semana, e como sete dias bem trabalhados podem render um mundo, vou começar agora".

Ao final do quarto dia ele já estava conseguindo se lembrar direitinho como é que se faziam as quatro operações. Ficou-lhe evidente que aquilo não seria o bastante para descobrir os segredos do universo. Resolveu então abandonar suas teorias físicas revolucionárias e partir para algo mais palpável. Debruçou-se violentamente sobre o estudo da biologia, e tamanha foi a violência de seu debruçamento que acabou pegando no sono quase instantaneamente.

Tornou-se óbvio que descobrir uma vacina que acabasse com todas as doenças não seria uma tarefa para alguns dias. "Provavelmente eu gastarei semanas" - pensou.

Amadeu trabalhou por algumas horas e terminou convencido que se tivesse conseguido decifrar aquele livro de biologia da sexta série nada o teria impedido de ir a cabo com seu desígnio.

Resolveu, depois de muito pensar por uns dois ou três segundos, que ganharia um prêmio Nobel de literatura. Rapou sua caderneta de poupança e comprou o computador mais rápido que encontrou na loja de informática. Amadeu não queria que nada, nem aquele computador velhíssimo de dois anos que ele costumava usar, atrapalhasse o processo criativo de seu primeiro best-seller. Processo criativo que ele nem mesmo sabia o que significava e best-seller que ele não fazia a menor idéia de como começar, já que não gostava de ler, pois achava que "esses livros tem muitas letrinhas que a gente tem que ler para conseguir entender o livro que é cheio de letrinhas e sem figurinhas pra gente ver e ajudar a entender as letrinhas que a gente tem que ler pra entender esse livro sem figurinhas pra gente ver e pra não doer a cabeça".

Dez minutos e muitas folhas amassadas depois, convenceu-se de que não estava inspirado e resolver partir para algo mais concreto. Resolveu ganhar o Nobel de economia, e começaria ganhando dinheiro na bolsa de valores. "Primeiro vou sentir o feeling do negócio pra dar aquele plus a mais e ficar podre de rico!" - raciocinava. Desistiu quando viu que não tinha nem um tostão no bolso e que estava devendo três meses no açougue.

Já estava perdendo as esperanças, mas decidiu tentar um Nobel em química. "Quem sabe eu não invento uma Coca-Cola melhorada ou um novo tipo de eliminador de mau hálito?" - perguntava-se. E pôs em prática sua empreitada num galpão nos fundos de sua casa. Pegou todos os produtos químicos que encontrou pela frente e iniciou seu alquímico experimento:

"Duas pitadas de noz-moscada, meio litro de alcatrão, Ajax, tempero pra pizza...deixe-me ver... sal-amoníaco, farinha Láctea, fermento, duas colheres de nitrato de potássio, acetato de vinilo? Ah, vai também...Cânfora, terebintina, permanganato de potássio, mercúrio cromo...e...que mais...hã....um pouco disso, um pouco daquilo, mais um pedaço disso aqui e Voilà! Acho que está pronto!"

Amadeu bateu tudo no liquidificador e bebeu seu precioso caldo sonhando com as glórias que viriam. Quando acordou estava na UTI da Santa Casa de Misericórdia se recuperando de uma intoxicação quase fatal e de queimaduras em todo o aparelho digestivo.

Algumas semanas depois, após convencer os médicos e as autoridades de que não se tratara de uma tentativa de suicídio, Amadeu recebeu alta.

Hoje Amadeu nem pensa mais nessa história de prêmio Nobel e de reconhecimento da comunidade científica. Sua nova meta é entrar para o Guinness como o ser humano que ficou mais tempo na frente de um aparelho de televisão, bebendo cerveja e sem tomar banho.

Dizem que ele anda muito desanimado com a concorrência.




(*) Ele realmente gostaria de ter acordado com o pé direito, mas sua cama tem o lado direito encostado na parede. Dessa forma, a única maneira dele acordar com o pé direito é fazendo um buraco no referido obstáculo e completar seu perfeito despertar no quarto do vizinho.



Moral: A maioria prefere parar num "Nobilis" a tentar um Nobel.



Comentários deste post (o haloscan apagou os dos posts anteriores)

Para ser comum,basta não agir,apenas deixar-se levar pela inércia.
Especial é o diferente,é a ousadia de ser o que realmente é,sem seguir modismos ou padrões estabelecidos.
É deixar-se levar pela essência que cada um carrega dentro de si,e que clama por compreensão e liberdade.
Como diria o pequeno e notável príncipe: "'Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos."
sheila | 04.09.05 - 11:41 pm |

Olá, Monique
Josephine ButterFly | 04.10.05 - 1:34 am

Oi, muito legal este blog. Vim, vi e gostei. Voltarei muitas outras vezes.
Beijabrações
Luiz Alberto Machado
LUIZ ALBERTO MACHADO | 04.10.05 - 2:05 pm

Enrrosquei na moral...mas a fábula é legaal!
Livs | 04.12.05 - 10:51 pm |

Livs, ainda o probleminha da idade...acho que você não é da época da propaganda do Natu Nobilis. Um uísque, se não me falha a memória.
Van Lampert | 04.13.05 - 3:21 pm

Acho que esse blog poderia se chamar: wwww.contosdeumlunatico.blogger.com.br

Historinhas bem legais, com início, meio e fim.

Se fosse apenas um diário, do tipo "meditações sobre a vida cotidiana", poderia ser:
www.metralhadoragiratoria.blogger.com.br.

Putz, esse já existe!!!

Guilherme | 04.14.05 - 2:40 pm |

Ou ainda, inspirado no último comentário de Livs, www.fabulasdeumlunatico.blogger.com.br

Que tal?

Porém, futebolisticamente falando, talvez seja meio receoso mexer em time que tá ganhando... Segundo o ranking do Google, você já é o 9º lunático mais conhecido do mundo! (e dentre os diários dos lunáticos, o seu já está em primeiro lugar!!!)


Guilherme | 04.14.05 - 2:47 pm | #

Natu Nobilis, "o mais escocês dos whiskies"? Aquela bebida que, quando os escoceses bebem, faz com que eles saiam correndo na tentativa de agarrar o primeiro brasileiro que encontram pela frente?


BondeAndando | 04.14.05 - 2:58 pm |

Hahahahahha

Isso é realmente engraçado... porque eu também quero ganhar um prêmio Nobel de tanto faz.

E não faço a menor idéia de como!

Você me expôs ao ridículo, Edmund! ;-p
Laly | 04.16.05 - 5:22 pm |

Toc, toc, toc...tem alguém aí?
Vanessa Lampert | 04.27.05 - 1:13 am |

è.. quando a gente percebe que é um perdedor total, não tem força de vontade pra fazer nada, simplesmente temos q tentar ganhar a vida de um modo muito facil. Acontece que não é nada fácil hehehe a gente só percebe o tempo que desperdiçou quando ve que sabe um pouco de tudo e que na verdade naum sabe nada aprofundadamente.
Mt foda teu blog... Parabens
Ana | 04.28.05 - 7:04 pm |

hauhauhauahuaHAUHuahHAUHUHUHAUAHHAUhauhauhauha.... hahah.....haha.....ai ai ^^``````
foi soh oq consegui pensar. sim, pensar...pois jah estou tao acostumada com emocoes expressas nao de uma maneira exatamente direta nesse mundo viciante atraves do qual estamos nos comunicando que eu consigo gargalhar em pensamento...acredite!!o.o

amadeu nao eh o demonio da luxuria?? ou seria asmodeu?? eh alguma coisa assim num eh??o.o`

`bjos bjos
pat | 05.21.05 - 5:27 pm |

sinceramente ed... achei muito sem graca essa historia! mas ee so uma ruin diante de tantas boas.
luis | 05.28.05 - 4:43 pm

atualizaçãããããão!
Rômulo | 06.24.05 - 8:47 pm |

Ótimo!! Como todos os textos daqui!

Atualiza!!
Anonymous | 06.25.05 - 4:48 am |

Estou indignada. Tem quase três meses que o senhor não atualiza este blog. Me recuso a crer que em três meses o senhor não tenha tido um único dia disponível para escrever. Seus leitores não podem ficar órfãos! Este blog NÃO PODE ACABAR!!! Exijo atualização JÁ!!!!
Vanessa Lampert | 06.28.05 - 2:53 pm

Muito criativo e de alguma forma até realista. O tema proposto é desenvolvido com naturalidade e descrito de forma competente. Adorei, voltarei outras vezes. Se tiver outras dicas de como ganhar o Nobel, me avise, aliás, avise-nos, contudo, preciso começar a desenvolver meu romance.

Abraços!
Beto | 07.04.05 - 9:33 pm |

Muito interessante, é aquela questão de hoje em dia haver mais celebridades do que célebres.

Força Sempre!!!
Alesson | 07.17.05 - 1:38 am

Cadê tu?
Josephine ButterFly | 07.21.05 - 10:52 pm





postado por: EDMUND BONAPARTE 11:08 AM






Sábado, Abril 02, 2005

Provérbios Analisados (Com Proverbial Paciência), parte II


"Cada louco com a sua mania."
Cada louco com sua loucura e cada maníaco com sua mania. Não vamos misturar os malucos para não dar briga.

"Cada um sabe onde lhe aperta o sapato."
A não ser que se diga que ele aperta em outro lugar que não no pé.

"Crie corvos e eles te comerão os olhos."
O que torna o negócio altamente antieconômico (e antiestético).

"De pensar morreu um burro."
Não se deve tirar conclusões precipitadas. Este burro certamente morreu de causas naturais enquanto pensava e não pelo simples fato de estar pensando, pois se assim fosse muita gente por aí já teria morrido há muito tempo.

"De boa intenção o inferno está cheio."
Nos informa alguém bem intencionado.

"Deus dá farinha, mas não amassa o pão."
Por isso muita gente prefere comer o pão que o diabo amassou.


To be (or not to be?) continued...

postado por: EDMUND BONAPARTE 4:32 PM






Quinta-feira, Março 31, 2005

Provérbios Analisados (Com Proverbial Paciência)


"A cavalo dado, não se olham os dentes."
Mas é claro! Jamais faça isso, em hipótese alguma! O bichinho todo assustado pela mudança de dono e por todas as conseqüências disso e você ainda quer enfiar a mão em sua boca (na boca dele, é claro)? Ao menos espere que ele se adapte à nova casa.

"A esperança é a última que morre."
Mas indiscutivelmente morre.

"A galinha do vizinho é sempre mais gorda."
Nesses casos convém perguntar imediatamente ao vizinho qual é ração que ele está dando.

"Alegria de pobre só dura um dia."
Ou menos...

"Amigo irado, inimigo dobrado."
De amigos irados eu não tenho muito conhecimento, mas o inimigo mais dobrado que eu já ouvi falar foi um tal contorcionista do circo de Moscou.

"A ociosidade é a mãe de todos os vícios."
A maternidade dos vícios é um assunto delicado, quase de família. Pesquisas genealógicas recentes apontam novos caminhos ao sugerir que os vícios descendem de inúmeras fontes, e não somente da ociosidade. Prova disso são os próprios pesquisadores que admitem, sem nenhum vício de linguagem, que ficaram viciados no assunto, mesmo que ele tenha dado um trabalho danado.

"A pressa é inimiga da perfeição."
Como não existe perfeição nesse mundo, vê-se claramente que a pressa é inimiga de um conceito utópico e fantasioso. Assim sendo, qualquer psiquiatra recém formado poderia atestar que a pressa é louca, tornando então redundante a expressão "Estou com uma pressa louca".

"Aqui se faz, aqui se paga."
Não representa a verdade na maioria dos casos, servindo muito mais para alívio psicológico momentâneo das massas oprimidas. Aplica-se muito bem, no entanto, nos casos onde se cobra o uso dos banheiros de rodoviária.

"A situação faz o ladrão."
No Brasil geralmente o ladrão se faz com a situação.

"Até os prédios mais altos começam de baixo."
Exceto os que são construídos nos morros.



To be (or not to be?) continued...

postado por: EDMUND BONAPARTE 10:54 AM






Terça-feira, Março 22, 2005

O Pior Dos Enganos (Quase tão ruim quanto marcar a letra errada na folha de respostas para uma questão que você SABIA a resposta)


As coisas nesse mundo passam a uma velocidade estonteante. E essas coisas geralmente são representantes daquela espécie de coisas que depois que passam não costumam passar novamente. São coisas daquele tipo de coisas que passam por você correndo e logo em seguida mostram a língua, dizendo: "Dançou, meu chapa! Hehehe". Que coisa.

É bem verdade que algumas coisas que passaram costumam passar de novo, tais como novelas antigas no "Vale a pena ver de novo" ou um filme passado e repassado na "Sessão de tarde".

[Aqui abro breves colchetes - ultimamente tenho evitado abrir breves parênteses -, pois a nostalgia me pega pelo braço, me sacode com moderada violência e me pergunta: Você se lembra das tardes legais assistindo a "Sessão da tarde"?... Sim, é claro, - eu respondo à indócil nostalgia - como eu poderia esquecer logo da "Sessão da tarde"?... Porém, faz tanto tempo que não assisto que nem sei mais se ainda existe ou não. E por falar nisso, eu gostava muito quando passava a "Fantástica Fábrica de Chocolate", ou "Guerra nas Estrelas", ou "O enigma da pirâmide", ou tantos outros ous que nem me lembro mais.]

Porém, outras coisas, talvez grande parte delas, passam e nunca mais voltam. Nunca mais!

[Novamente abro breves colchetes para que você pense bem no termo "Nunca Mais", medite no seu conceito e reflita na infinitude de sua duração e no impacto que isso causaria na sua limitada e relampejante existência. Só não pense muito que a gente não tem muito tempo e tempo é dinheiro. E por falar nisso, aceito doações de tempo.]

E como algumas coisas nunca mais voltam, é no mínimo pouco esperto deixar que passem e nos mostrem a língua. É óbvio, ou não, que não quero dizer com isso que devemos viver desesperados para pegar todas as coisas que aparecem pela nossa frente. Só digo que certas coisas se perdem simplesmente por que ficamos parados, observando.

É como um carrossel enlouquecido no qual devemos entrar. Não sabemos quem o fez, quem já está andando lá, ou quando começou com seus furiosos rodopios, mas sim, temos que entrar. Não importa que sua velocidade venha a nos atirar por sobre os cavalos e quebrar os nossos ossos, não importa se o giro alucinado nos queira arremessar pela tangente e nos espatifar contra os muros, nada disso importa. A única coisa que importa é não ficarmos lá parados, catatônicos, mentecaptamente hipnotizados, olhando as coisas passarem, nos mostrando a língua (detesto quando elas fazem isso), enquanto o inflexível bicho-papão chamado eternidade vem nos perguntar o que fizemos com o pouco tempo que nos deu.

É de dar medo. Felizmente detesto carrosséis e não acredito em bicho-papão.

postado por: EDMUND BONAPARTE 8:35 PM






Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005

O Blogger.com.br E Eu

O Blogger.com.br, essa entidade indefinida, novamente me tolhe os movimentos (como se eu não soubesse muito bem fazer isso sozinho). Agora ele (ou ela, sei lá) não me permite mais fazer nem sequer um miserável up-load de um miserável arquivo do tipo "html" para dentro do miserável espaço que me corresponde para que em meu miserável blog possa aparecer meu novo e miserável endereço de e-mail na miserável forma que escolhi para que ele aparecesse em seus míseros detalhes.

Por que tanta miserabilidade? Não me passa nas idéias há quanto tempo tão miserável instrução foi miseravelmente decretada, mas é de longe que já não consigo mais fazer míseros up-loads dos meus miseráveis arquivos de som, o que deixa mais miserável meu intento de me comunicar.

Que povo digno de comiseração. Quando entrei aqui neste espaço, me foi dado poder sobre as criaturas que aqui habitavam e para cada uma um nome escolhi, e dos frutos dessa terra, em minha inocência, provei.

Mas agora, o mesmo indivíduo que o paraíso me ofereceu, o quer de volta. Não pedi para estar aqui, praticamente me vi obrigado a escrever nesse espaço. Fui compelido pela força avassaladora das promessas dessa terra onde vertia leite e mel.

Mas o leite acabou, as vacas morreram, e de mel só consigo um pouco após muitas picadas.

Vejo-me comprimido em dez megabites de um espaço que outrora me foi infinito. Vejo-me obrigado a restringir meus passos a lugares pré-determinados, escolhidos por alguém que ninguém sabe quem é, e que eu gostaria de acreditar que fosse somente mais uma alucinação.

Por que? Por que tanta arbitrariedade?

Será porque, no momento em que entrei aqui eu, escolhi "eu aceito os termos deste contrato", sabendo que a qualquer momento eles poderiam fazer qualquer coisa que emanasse de suas prodigiosas cabeças? Será porque eu escolhi construir minha casa e estabelecer meu lar na cratera de um vulcão adormecido?

Sim, é isso!

Então tá! Nada como uma boa, lógica, e definitiva explicação para nos revigorar o espírito e nos devolver a paz.


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Comentários deste post:

"É...é a vida!"
Cami 02.19.05 - 2:29 am


"Ed, é verdade que você e a Josephine terminaram? Porque ela sumiu, encerrou o blog e ninguém ficou entendendo nada. Você continua escrevendo perfeito,eu tambem passei por isso e me senti muito presa, até o momento em que decidi terminar com tudo e deletei o blog do blogger. Mas isso você não pode fazer. Adoro passar por aqui e ler seus posts, espero que sejam mais frequentes como antes. beijinhos"
Nany | 02.25.05 - 12:43 pm

" Eu acho que essa coisa toda é porque vc dormiu com o bloggerman (ou bloggergirl)... será? Grande abraço! :D"
Helinho 03.01.05 - 4:37 pm

" oh vida, oh céus! não se revolte....
ahn...oi! =) achei seu blog por ae..dano-se...vou entrar aki sempre ;) bjo"
pat 03.19.05 - 5:32 pm


"Acho que não há nada mais intrigante e frustrante para um blogueiro do que abrir os comentários e ver pessoas elogiando o template ou pedindo visitas, isso mostra que de nada adiantou o tempo disposto para expressar o que se pensa...
Sobre dilimitar seus passos, isso pode ser de certo modo bom,pode proporcionar-lhe um pouco mais de privacidade e intimidade, não se expor de todo a quem nem se conhece ainda, posto que um blog é um espaço público, não vale a pena desvendar-se dessa forma pra quem quer que seja, temos que tomar o máximo de cuidado quanto a isso, no mais... continue escrevendo e se preservando... Beijos **CECI**"
**CECI** 03.21.05 - 1:12 am

"Ed, não se conforme assim tão facilmente. Sim, você aceitou os termos do contrato, mas revolte-se, lute, consiga um domínio próprio, faça suas próprias regras, liberte-se do domínio dessa entidade do mal! Talvez dê até para fazer upload de suas mensagens de voz... :) Beijão!"

Van Lampert 20-02-2005 09:27:39

" uaheuahea kra, tah otimo teu blog.. tah nos meus favoritos.. voltarei! Shallon"

Rômulo 09-03-2005 23:38:54



postado por: EDMUND BONAPARTE 2:48 PM






Sábado, Janeiro 08, 2005

Lições De Uma Balinha De Goma

Esses dias resolvi comer balas de goma(*), coisa que me enche de satisfação e que há tempo eu não fazia. Claro que só me enche de satisfação quando o faço antes ou após as refeições, porque a velha história de que "tudo irá se misturar no estômago mesmo" não invade as minhas idéias nem me atira em gastronômica curiosidade.

Deveria também dizer que não costumo comer balas de goma após ter comido um doce mais doce do que as referidas balas. Isso porque as papilas gustativas, anestesiadas com a doçura do doce mais doce, fazem com as balas de goma tenham o mesmo gosto de rodelinhas de vela de cera. E posso dizer isso, pois já comi velas de cera.

Pois bem, estava eu mastigando e dilacerando sem misericórdia minhas balas de goma, tranqüilamente, apreciando o gosto de cada cor (foi com as balas de goma que eu descobri que as cores têm gosto, embora nem sempre combinem com os gostos das cores das gelatinas, dos chicletes e dos MM's), quando, de repente, muito de repente, numa estonteante derepência, mordi com infinita violência um objeto estranho e aparentemente sólido que parecia estar no interior de uma das minhas balas de goma.

Os músculos da minha face se contraíram de tal forma que meus olhos quase saíram pelo nariz e os cantos da minha boca quase foram se encontrar lá pela nuca. A pressão que tais músculos exerceram em minha cabeça quase me causou um traumatismo craniano, estou certo disso.

É bem verdade que mentes pouco abertas poderiam dizer que eu estou exagerando os fatos, que eu mesmo sou um indivíduo exagerado, mas eu seria capaz de ir nadando até a África e escalar o Kilimanjaro com dois garfos se isso os fizesse crer na ausência ABSOLUTA de exageros em minha pessoa.

Mas para não encompridar a história (objetivo que raramente atinjo), tratei instantaneamente, e até de forma inconsciente, de agrupar em minha mente os suspeitos de terem cometido o hediondo crime de macular o imaculável interior de minhas balas de goma.

Os primeiros suspeitos que se sucederam em minha mente foram aqueles mais óbvios, tais como: um fragmento de meteoro de Marte, um caco do muro de Berlin, uma bala da primeira guerra mundial, a falangeta do mindinho esquerdo do Papa Pio X, um parafuso da Challenger, uma cabeça humana encolhida pela tribo dos Jivaros, os encolhedores de cabeça, uma lasca da Cruz, e outras possibilidades igualmente prováveis.

Isso tudo aconteceu em 3,78 milésimos de segundo, mas foi tempo suficiente para me encher de temor pelo o que eu encontraria prensado entre meus molares. Com toda a calma que eu consegui reunir, retirei o objeto de minha boca e fitei-o por alguns segundos. Para meu espanto, descobri tratar-se tão somente de uma miserável obturação de amálgama, daquelas antigas, que resistiu bravamente a anos e anos de diária mastigação, e que encontrou seu fim nas mãos de uma singela balinha de goma (cheguei a conclusão que essas balas possuem muitas mãozinhas, embora microscópicas, de grande poder segurante).

Posso dizer que tirei muitas lições dessa minha obsessão. Ou ex-obsessão, já que não sou louco, embora seja louco, de continuar comendo esses pequenos demoniozinhos e acabar correndo o risco de ter meus dentes arrancados ou de sofrer coisa ainda pior, pois quem hoje lhe arranca as obturações pode muito bem querer lhe arrancar o resto da cara amanhã.

Portanto, a primeira lição que tirei deste lamentável acontecimento é que mesmo uma coisa agradável, doce, prazerosa e que custa cinqüenta centavos pode lhe custar cem reais de torturante tratamento médico.

A segunda lição que tirei é que não se pode confiar em promessas de moleza e facilidade, principalmente nas que vêm até nós, vida a fora, pelas balas de goma. Certamente alguém tão artificial, tanto no gosto quanto no aroma, sem falar na cor, não vai ter coisas boas para compartilhar em médio ou longo prazo, sobretudo se ela estiver fora do prazo.

A terceira lição que tirei é que nem tudo o que nos agride, nos causa dor e nos assusta vem necessariamente de fora. Ao contrário, na maioria das vezes o que mais nos machuca e o que mais nos faz sofrer já está lá, escondido em nós mesmos, só esperando um momento certo para sair, nos repuxar a cara e quase nos presentear com um traumatismo craniano.

E por fim, a quarta lição que eu tirei dessa história é que é mesmo muito difícil arrancar mais de três lições de uma balinha de goma.



(*) Também conhecidas como gominhas, jujubas, e por uma infinidade de outros nomes que desconheço absolutamente.


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Comentários deste post:


"Por que alguém colocaria um crânio humano minaturizado dentro de uma bala de goma? E se aborígenes colocassem um crânio humano minaturizado dentro de uma bala de goma, teria um fêmur humano miniaturizado em outra, um úmero humano minaturizado em outra, enfim, um esqueleto inteiro minaturizado em um pacote de balas de goma? Fora a lasca da cruz...sinistro...

Mas falando sério, você tem razão, o que mais nos assusta e agride está, quase sempre, dentro de nós. Que coisa...

A propósito, a quarta lição é hilária.

Estava com saudades dos seus textos

Beijos!"
Van Lampert | 01.08.05 - 6:28 pm

"Nossa! Você é 10! Por favor, não desapareça!"
Alencar | 01.16.05 - 12:43 pm

"Olá...
não tenho a mínima noção do que se passou durante os últimos meses nesse blog,na verdade não tenho noção alguma quando trata-se desse blog.Mas saiba quão gratificante é retornar ao submundo virtual e ler um texto teu. Não que os da Josephine não me agradam,pelo contrário,vocês fazem parte do mesmo "circo"!(Se é que entendem o que quero dizer.rs)
Feliz ano novo Edmund e Josephine!!
:) "
GURIA | 01.19.05 - 2:35 am

"Muito profundo.........
Mas sabe, chicletes são mesmo muito piores que balas de goma...quando eu, quando era apenas uma infante feliz e saltitante, ainda mascava chiclete(enjoei não masco mais), perdi inúmeras obturações,na verdade era só uma, mas caía toda hora e eu tinha que voltar pra fazer outra!

Beijosss"
Livs | 01.22.05 - 10:45 am

"Ei, o senhor não vai escrever mais, não? Sentimos a sua falta.

P.S.: houve uma tentativa prévia de comentar este post, à época de sua publicação. Aparentemente, o HaloScan não gostou do que eu escrevi e censurou meu comentário. Enfim.

Beijos!"
Laly | 01.26.05 - 5:40 pm

" Fantástica, instigante até o último segundo! Quando lia, não pude me conter para pular para o proximo parágrafo para saber quais as lições tiradas da goma! A história está bem envolvente - parabéns!

(01) Abraço - GIL MSU"
GIL MSU | 01.29.05 - 8:23 am

"Ótimo! Comprei as tais balas, o incoveniente é que grudam nos dentes! A propósito, conheço alguém viciada em jujubas... quem será ? Escreva mais!!!!! Quero me divertir!"
naura stella de resende matius | 01.30.05 - 11:32 am

"meuuuuuuuuuuuuuuu bala de goma naum eh jujuba!!!!!!!! por favor q erro gravissimo... no proximo post kero q vc faça uma correcao seriu... leio seu blogg a + de um ano se pah... ateh na epoca q vc paro e recomeço !!!"
Sabrina | 01.30.05 - 10:44 pm

"Sabrina, eu chamo bala de goma de Jujuba e de onde eu venho todo mundo chama. Talvez por isso Edmund tenha colocado a observação."
Josephine | 01.31.05 - 9:24 am

"Uhm, entao vou comprar um negocinho desse de própolis e deixar aqui...a proxima afta vai ver oq é bom pra tosse!
Mas Josephine o que acaconteceu com seu bloug????

Beijos"
Livs | 02.01.05 - 10:50 am

"Olá!
Li o seu post e só resolvi fazer um comentário em solidariedade a você. Alem de acreditar nela piamente, sei muito bem a dor sem proporções e o perigo que você correu durante o acontecido. Já fui vítima de uma bala de goma também e vou lhe dizer que aquilo e mais prejudicial do que os cigarros que tanto é descriminado por ai. Sou até a favor da proibição dessas balas da besta, como você mesmo se referiu meu amigo. Um abraço e boa sorte no tratamento dentario."
Jorge | 02.03.05 - 3:06 pm

"Pago o quanto você quiser para escrever com mais frequência por aqui.Somos todos aqui da empresa viciados no seu blog, por favor não suma!!!!!!!!!!!!!"
Mercenário | 02.12.05 - 3:56 am

"Edmund,cheguei até aqui graças ao blog da Van.Sempre notei que post sim post não,ela citava O Diário de um Lunático,só que não sei porque cargas d'água eu não entrei aqui antes!
Hoje resolvi faze-lo e digo,isto me valeu a noite!Fiquei encantada com o que escreve,e foi tanto,que acho que em 40 min. devo ter lido uns 30 posts.Adorei a sua história!Fico pensando que incrível que existe gente com tanta imaginação!Não quero lhe cobrar -acho que muitos já devem fazer isso- para que escreva mais,mas espero e torço para que volte o mais rápido possível.Poxa vida!Eu aqui,morrendo de agonia e desenvolvendo todos os tiques nervosos que você conseguir imaginar porque eu não consigo postar algo que realmente traduza o que eu penso,e, de repente, resolvo me aventurar justo neste blog tão...tão...ah,sei lá,não tenho palavras.Peço permissão para colocar um link seu no meu blog
:)
Boa semana pra você!"
Cami | 02.14.05 - 12:48 am

postado por: EDMUND BONAPARTE 2:42 AM






Sexta-feira, Dezembro 17, 2004

E Os Dias Passam...

Vejam minha situação. Sou daquele tipo de indivíduo que faz tudo pensando em tudo o que faz e em tudo o que deixa de fazer. Sou daqueles que vê, em todo o dia que amanhece, grandes oportunidades a serem exploradas e essas mesmas oportunidades perdidas no dia que passou. E isso todos os dias. Uma verdadeira rotina.

Aflita iniciativa que diariamente vem e dá as caras, mas não consegue entrar na sala, sentar e conversar. Deve ter medo de gente.

Não deveria, pois o que mais há nesse mundo é gente. E há tanta gente nessa bolota azul que se os chineses, somente eles, pulassem todos ao mesmo instante...sei lá eu o que aconteceria. Não sei mesmo. Ainda não passaram esse capítulo no meu programa favorito, "O incrível mundo do vácuo absoluto".

Mas já que eu levantei a questão, imagino que um bilhão e duzentos milhões de habitantes com quarenta quilos de peso, em média (para ser conservador, já que deve existir um monte de chineses bem miudinhos na china), perfazendo um total de quarenta e oito milhões de toneladas de material humano, todos pulando ao mesmo instante uns quinze centímetros (novamente para ser conservador, pois deve existir um monte de chineses com problemas de articulação), poderia muito bem causar um violento terremoto em escala global. Ou não. Realmente não faço a menor idéia.

Mas suponhamos que sim, que os chineses pudessem causar apocalípticos terremotos. Não seria muito melhor que utilizassem esse poderio saltitante para ameaçar o mundo do que suas armas atômicas, cujos custos de desenvolvimento são altíssimos, ou outras tecnologias igualmente dispendiosas. Seria um verdadeiro negócio da China para a China.

Mas agora voltando ao início do texto, fica bem fácil entender o que eu estava dizendo. O dia se escancarava com inúmeras oportunidades e eu o gastei todo pensando em chineses saltadores.

Lamentável.


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Comentários deste post (o haloscan os deleta de tempos em tempos, daí a importância de copiá-los em local mais seguro onde continuem visíveis):

"Pena não ter um diretor de programação com cabeça limpa o suficiente para achar novos(ou não, mas que pelo menos tenham)talentos.Suplicariam episódios do Lunático...Seria perfeito para uma peça de teatro, perfeito para televisão,perfeito e inovador para o rádio e nem se fala em quadrinhos já que ainda teríamos a chance de você fazer parte de ainda mais uma parte do processo para levar ao grande público,que logo clamaria por ter isso no cinema.É realmente muito estranho soltar essas viagens,pq afinal não te conheço(apesar de reler todo o blog milhões de vezes) não sei o que faz o ou o que já fez com sua genialidade.A questão é que a internet da aos gênios famosos e super reconhecidos à oportunidade de provar o anonimato.E talvez seja isso que queira.O que viajo nas peças e outras montagens que faço com seus textos na cabeça acho que é mais é vontade de que tenha outras oportunidades de ver mais da sua criatividade e roteiro impressionantemente bem escritos(não sei escrever bem,mas sei muito bem quando uma coisa me emociona). Agora vai sobre o texto pq detesto quando as pessoas falam, falam e não comentam o que ta escrito. Meu cachorro tem o mesmo problema nas suas aulas de adestramento diárias, ele não obedece e não faz nada do que mando não por indisciplina, mas ele se distrai muito fácil com cada lição (espero eu) já que ele pode estar matutando um plano de juntar seus iguais e afogar os humanos em baba. E até mais ver."
Gabriel | 12.18.04 - 2:35 am


"Tem gente demais nesse mundo, mesmo.
E pensar que a capacidade do mundo é de 100 trilhões de pessoas sem que haja falta de terra produtiva e sobrando 6 km quadrados por pessoa.

Ah, eu usei uma imagem antiga sua (com crédito, claro)para ilustrar um post meu. Se você quiser que eu tire, por favor avise."
Flávio | 12.18.04 - 4:23 pm

"São nas horas que pensamos estar desperdiçando que surgem as grandes idéias... às vezes, não... mas precisamos dessas horas para que elas apareçam um dia.
Um abraço!"
Pat | 12.22.04 - 4:22 pm

"Os chineses podiam usar isso pra ameaçar os EUA.

- Não vai ser nosso aliado? Olha que a gente pula, hein!
- Não não, por favor! Faço o que voces quiserem!
- Acho bom."
edu | 12.29.04 - 12:26 pm

"ehehe, essa dos chineses foi muito boa. mesmo. Fazia tempo que eu não vinha aqui. Foi bom rever o blog. Faça o mesmo. Um abraço"
Tustra | 01.02.05 - 5:44 pm

"quando a gente pensa que so pensa besteira surge solução da nossa vida, ócio criativo... bom blog"
zero | 01.06.05 - 2:37 am

"oi adorei teus pensamentos na verdade , vc naum perdeu teu tempo pensando em chineses saltadores... é uma maneira criativa de imaginar a vida ,, eu tambem vijo assim como vc ,,, bjaumm fuixxx "
RAFAELA | 24-12-2004 08:57:39

"Sabe, eu parei de me preocupar com os dias que passam e levam as oportunidades lá para longe. Quando vejo uma oportunidade passar por mim, tento agarrá-la pelos cabelos. Nem sempre é possível, portanto não se torture. Às vezes é importante pensar em chineses saltadores. Não sei exatamente por quê, mas eles devem ter alguma utilidade prática que supere a eventual perda de oportunidades pelo caminho. Não sofra. A propósito, acabo de ver seu blogchalk à esquerda. Você mora em Pinelópolis? Preciso conhecer esse bairro em Porto Alegre...risos... e "psicologia mobiliária" me parece ser uma atividade bastante interessante...risos...só você mesmo, Ed. Beijos! "
Van Lampert | 28-12-2004 12:40:46

"achei esse blog uma porcaria pelo nome parece divertido mais quando vc entra nele vc ve que vc so perdeu seu tempo,fala serio,a gente te que ficar lendo e lendo,isso irrita,cara eu nao te conheço mais se eu fosse vc melhorava esse blog "
Daniela | 30-12-2004 21:36:17

"Daniela, lamento muito que você não tenha gostado porque aqui você tem que ficar "lendo, lendo, lendo" e você se irrita com isso. Muito triste. Da próxima vez, além de ler e ler, tente entender o que leu, deve ajudar. Infelizmente, nada podemos fazer, o blog continuará tendo textos (bons textos), cheios de letrinhas e pontinhos. E não há outra forma, como não dá para comer, o jeito é ler mesmo. :) Edmund, por favor, não mude nada neste lugar. Feliz 2005 a todos!! "
Josephine ButterFly | 31-12-2004 12:25:59


"coitada dessa tal Daniela...coitadinha dela "
Tustra | 03-01-2005 21:34:08

"oh, Daniela, cara mia... inveja corrói o espírito, hein? francamente...ei,Edmund, sempre passo por aqui, pois costumo selecionar boa leitura ! continue assim, pois queremos ler, ler, ler e reler as coisas mirabolantes que saem ,literalmente, de sua cachola! "
naura stella de rese | 12-01-2005 23:31:29

postado por: EDMUND BONAPARTE 11:24 PM






Terça-feira, Dezembro 07, 2004

A Raposa E O Leitão, Uma Fábula Cruel E Desumana Com Requintes De Educação

O leitão chafurdava esfuziante em sua pútrida poça. A Raposa, ávida por descobrir a natureza das coisas e seus mecanismos de funcionamento, rondava o pequeno suíno em busca de informações (obviamente que o fazia com propósitos escusos e egoístas, típicos da pérfida personalidade que para tal espécie é automaticamente outorgada em qualquer fábula que se dê o devido valor).

- Por obséquio, Sr. Leitão, aborrecer-te-ia dizer-me por que te banhas em tão degradante fluido? - Argüiu o canídeo.
- Porque, insidiosa criatura dos bosques, este argiloso líquido enche-me de satisfação e renova-me o espírito. Porque, posso verdadeiramente dizer, é simplesmente lama, e eu a amo, e ela me ama.

Diante de tal revelação a Raposa logo conjecturou uma oportunidade:

- Peço-te que não me entendas mal, Sr. Leitão, entretanto parece-me estranho que te contentes com tão pouco. Acompanha-me em incursão pela mata e, tão certo quanto da inevitabilidade do alvorecer, mostrar-te-ei um inacreditável barreiro que te fará perder a lembrança deste no qual imerges teu untuoso corpo.

O leitão, pressentindo vilania nas idéias do suposto filantropo, indagou:

- Não intentas porventura me inebriar o intelecto e, desviando-me de minha natural prevenção, iludir-me com astuto ardil, para que, conduzindo-me a lugares desconhecidos, craves teus dentes em meu corpo e, rasgando-me as carnes, nutra-se de minha substância?
- Pela minha honra, dou-te a palavra de que encontrarás em meus conselhos celestial lugar para que teu contento seja completo e teu deleite, eterno. - Proferiu a Raposa, com sua pata direita sobre o peito.

- Sair de minha segura cacimba pela simples promessa de uma terra onde verte lama sem fim não é, em verdade, meu apropriado modus operandi quando, em agravante à situação, a jura me é firmada por um representante de uma espécie notoriamente matreira. - Retrucou o Leitão.

- Lamento profundamente que a fama de minha ascendência suscite reservas quanto à minha boa-fé. Entretanto, vejo-me obrigada a alertá-lo de que em breve a primavera nos deixará, e o verão, impassível, roubará a umidade de tua lama. E quando o sol fustigar-te impiedosamente o lombo certamente irá lembrar-te de minhas palavras, mas distante já estarei e por ti nada mais poderei fazer. Todavia - complementou -, se é assim que desejas, não mais te perturbarei. Desejo-te um bom dia e, se possível, um bom verão, Sr. Leitão.

E então se pôs em retirada a Raposa, lentamente, agindo como quem de sua própria vida cuidava. No entanto, o fazia espiando de soslaio, ansiando por alguma reação do enlameado suíno.

- Minha lama! Minha lama! Minha lama! Ai, minha lama! - Era só o que pensava o atribulado Leitão.

Espera, cara Raposa, não partas! Sua palavra de persuasão encontrou abrigo em minh'alma e o temor que dela proveio o meu espírito absorveu. Leva-me, rogo-te, ao maravilhoso lamaçal, pois em sua honra deposito minha confiança.

A Raposa suspirou discretamente, externando seu alívio, e pela mata adentrou a improvável dupla. Conduziu então o crédulo Leitão para um canto escuro do bosque, e quando a trilha se extinguiu, no final da inexpugnável ravina, a Raposa declarou:

- Por fim chegamos, Sr. Leitão, e aqui encontrarás o teu prometido repouso.

O Leitão, olhando para a uma fossa que se agigantava a sua frente, exteriorizou:

- Eis que me sobrevém grande espanto! Onde, repito, onde se oculta o paraíso que me prometeste, falaciosa Raposa? Somente vejo uma abominável fenda repleta de ossadas!

- Pois certo é que a elas irá juntar-se a tua, pois te darei a celestial morada que te afiancei, e isto o farei agora!

A Raposa mal terminara sua mefistofélica revelação, quando saltou por sobre o Leitão.

Porém, contrariando as mais otimistas previsões, a Raposa viu-se firmemente agarrada por uma armadilha para ursos, e, impossibilitada de se mover, lamentou sua triste sorte:

- Ai de mim! Que bestial criatura armaria tão grotesco engenho para capturar ursos se por aqui tal animal não habita? E agora, por culpa dessa irracionalidade, encontrarei meu fim de ignóbil jeito, quando de mim sobrar apenas uma carcaça presa a este sanguinolento instrumento.

Criatura malvada e embusteira! Espero que teu sofrimento seja infinito enquanto dure!(*)
Ganhas por tuas mãos o destino que me preparavas! - Bradou o Leitão.

E, dando as costas violentamente, tomou o rumo de volta à sua poça. A Raposa rapidamente concatenou:

- Sim, caríssimo Leitão, e menos que tal desfecho minha existência não merece. Durante meu tempo nesta terra, somente aos meus caprichos atendi. Desfrutei do que não me pertencia e a ninguém prestei ajuda. Não há castigo neste mundo que redima o que para trás deixo.

Não resistindo ao impulso, o Leitão coloca suas orelhas em pé, curioso com a surpreendente confissão.

- E, para afligir-me ainda mais o coração, sei que eu jamais terei outra chance de uma vida decente construir. Lamento-me com abissal profundidade por não ter, ao menos, mostrado-te o paradisíaco lamaçal. E agora, por minha fraqueza de espírito, morrerei em indescritível sofrimento, sabendo das aflições que me reservam os próximos momentos, e das que te reserva o futuro.

- Futuro? Minha lama! Minha lama! Minha lama! Ai, minha lama! - Aterrorizou-se em pensamento o Leitão, e, aos gaguejos, apavorado com o que lhe sobreviria no verão, disse:

- Convenhamos, dona Raposa, creio firmemente que o futuro, de fato, não precisa desenrolar-se em tão densa negritude. Porventura não podemos, nós dois, fazer um novo e incorruptível acordo?

- Não creio que tal possibilidade exista, Sr. Leitão, pois meu tempo já chega ao fim e, se ainda me permite a súplica, gostaria somente de ganhar teu perdão pelos males que te fiz e assim acalmar minha flamejante consciência. Perdoa-me também, caro Leitão, pelo bem que jamais poderei fazer-te. - Clamou, já quase sem ar um seu comprimido corpo.

- Não morras, dona Raposa, por favor, não morras! Eu te perdôo, todavia não inventes de morrer em tão má hora!

O Leitão correu em busca de um fragmento arbóreo para utilizar como alavanca para afrouxar o tenaz dispositivo.

- Força, dona Raposa, força! O aparelho não te perfurou o couro, pois a folga que nele há é o bastante para somente comprimir-te o delgado corpo, embora ao extremo, de forma que viverás se pudermos logo daí retirar-te. Quando me ouvir contar o três, exerça pressão com o que resta de tuas forças e liberta-te do cativeiro, pois afastarei as metálicas mandíbulas com todo meu vigor. Eis que é um!... Eis que vem o dois!... E eis que chega o três!!!

A Raposa, quase em inconsciência, caiu ao solo. O Leitão, radiante pela façanha realizada, veio em socorro. Claudicante e atordoada, a Raposa lentamente ergueu-se, sorriu fraternalmente para o Leitão e abocanhou-lhe o pescoço.


Moral: É uma tristeza enorme esperar bom senso de quem teima em ter espírito de porco.


(*) o Leitão estava inspirado com algumas poesias de Vinícius de Moraes que lera alguns dias antes.



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Comentários deste post (o haloscan os deleta, de tempos em tempos):

"Maravilhoso como de costume.Desconfiei por um segundo,que o paradisíaco lamaçal fosse aqui na america, lá pelo norte.


Grande abraço"
gabriel | 12.08.04 - 9:26 am

"Pelo norte, Gabriel? O lamaçal está muito mais perto...

Ed, como sempre maltratando os pobres animaizinhos. Suas fábulas são sempre incrivelmente bem escritas, porém terrivelmente cruéis. Embora em sua profunda ingenuidade, o leitão estivesse sujeito à velha lei do mais forte.

A moral, como sempre, perfeita. Continua sendo meu escritor preferido. :) Beijos!

E vê se atualiza com mais frequência para que não precisemos ser submetidos aos torturantes reloads em vão."
Van Lampert | 12.08.04 - 1:38 pm

"Uau!"
Alencar | 12.09.04 - 12:28 am

"Oioioooi!!! essa 'e a 1a.vez q acesso o seu blog e simplesmente ADOREI.Se nao for pedir muito,POR FAVOR da um pulinho no meu HUMILDE blog e deixa uma mensagem de incentivo pra mim,OK?!"
NANDOCA78

"Brilhante, Edmund, como sempre. Amei. De suas melhores fábulas.

Sabemos que textos são bons quando eles nos trazem um sorriso que nos acompanha por todo um dia, e sempre que nos lembramos deles :)"
Laly | 12.14.04 - 2:17 pm

"caro Edmund,não pare de escrever jamais. as coisas bem feitas devem sempre ser...feitas!a fábula é isso...parece cruel...mas bem que o leitao mereceu a mordida!ahahahah!!!!!!!!uma vez raposa..."
naura stella de resende matius | 12.16.04 - 11:04 pm

"Aí se encontra uma fábula de abissal profundidade."
Tustra | 12.19.04 - 2:10 pm

postado por: EDMUND BONAPARTE 5:53 PM






Terça-feira, Novembro 23, 2004

O Porquê Da Questão

Sempre que me vejo em situação de extraordinária dúvida e aflitiva curiosidade, não posso evitar me perguntar o porquê disso tudo e o porquê dessas coisas todas (nem sempre nessa ordem, mas sempre com igual intensidade).

Todavia, quase nunca me pergunto, já que na hora "H", quando a cruciante questão se apodera de minha mente, eu nunca sei onde, quando e como usar esses porquês. Porque, como você já deve ter ficado em dúvida e se recordado também, existe uma família inteira de porquês, todos eles felizes e saltitantes como aqueles cachorrinhos que as madames costumam arrastar pelas ruas, doidos para receberem atenção de seres que quase nunca sabem como dá-la corretamente.

E aí eu me incluiria até as galochas, caso eu as usasse.

Os porquês são todos parecidos, mas cada um vem assim, cheio de significados, cheio de mistérios, que só aquele povo bem letrado e de boa memória sabe desvendar e se lembrar sempre e em profundidade. Eu até desconfio que foram eles mesmos que criaram esses bichinhos somente para nos aturdir e nos lançar em gramatical desespero. Mas o importante é não entrar em pânico, já que certamente irão me perguntar o porquê do desalento, e de porquês eu já estou cheio.

É de boa prática então não se deixar levar pelas aparências dos porquês na hora de se aproximar de um deles. Porque os porquês podem ser muito cruéis com quem os emprega sem atenção - são péssimos empregados -, principalmente quando você está fazendo um concurso público, um vestibular ou qualquer um desses testes projetados para fazer com que nos sintamos ignorantes e ineptos.

Os porquês colaboram ativamente com o sistema de ignorância pública (nossa mais sólida instituição brasileira).

E quando vejo tudo isso só me resta dizer... por que?...ããh... ou será porquê?...talvez porque?... ou por quê?

Bem, tanto faz. Desisti de saber o porquê desses porquês. De agora em diante vou tentar usar somente um "por qual razão?".

E que ninguém me pergunte por que, pois não quero nem fazer a menor idéia.





Atenção: Os produtores desse blog garantem que nenhum dos porquês aqui utilizados foi vítima de maus-tratos de qualquer tipo. Por quê? Também não sabemos, pois que eles merecem, merecem.

Também não nos responsabilizamos pelo mau uso desses porquês neste local, tenham sido eles empregados como substantivos, conjunções subordinativas causais, conjunções subordinativas finais, conjunções coordenativas explicativas ou de qualquer outra forma que você porventura - ou desventura - venha a encontrar nesse texto.



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Comentários deste post:

"Vc me confundiu terrivelmente com todos esses porques!
Eu nunca me deu bem com eles!
pior que os porques só as tabuadas pra me fundir a cuca.....
ninguém merece

beijocas"
Livs 11.24.04 - 10:22 am


"E por que, ó, por que nos assolas com tantos porquês? Por quê? :) Desespero-me porque sei que escorrego nos porquês, e por que não o faria?

Ótimo, como sempre :)"

Laly 11.24.04 - 4:09 pm


"Por que dar tanta atenção aos porquês? Eu, particularmente, acho que já consegui adestrá-los. Não sofra, faça com que eles te obedeçam, com que percebam que você é mais forte do que eles e que eles não podem dominá-lo.

Ei, muito me alegrou ver, ao final do texto, que nenhum porquê saiu ferido de toda essa elocubração.

Amo seus textos metalinguísticos! Aliás, amo seus textos!

Beijos"
Van Lampert | 11.27.04 - 10:52 pm

"Sabe estava a navegar na internet procurando algo que não sei ao certo.Pronta para qualquer coisa, mas não para um blog ter assunto realmente substancial.Gostei do seu texto bem escrito e que realmente demostra alguma coisa...abaixo os por ques da vida....vamos por qual razão.Continue assim.Só não fale mais de por que....e não me pergunte porque?"
Juliana | 11.29.04 - 1:31 pm

"Completamente alucinado com seus textos!!!! Entro mais de uma vez por dia releio tudo !!!!
parabens"
gabriel | 11.30.04 - 9:08 am

"Exatamente. As razões e motivos dos "porques" que fiquem em seus devidos lugares: provas, convursos, vestibulares. No nosso espaço virtual, damos aos "porques" o tratamento que bem queremos. E viva a falta de porque dos "porques"!!! :D"
Helinho | 11.30.04 - 2:41 pm

"Sabe, sempre passo aqui...
e como sou um pouco (leia-se extremamente) desligada nunca comentei... mas cá estou eu dando o ar da minha desgraça aqui!!!
heuehuehe, então passar bem!!
Bjouxx
Ahhh esqueci de dizer q escreves mto bem, e estou apaixonada pelos seus textos... eles me deixam feliz! =D
Tanto os de edmund qto os de Josephine, vcs me deixam feliz!!!
estou tão feliz, q minhas mãos nao conseguem parar de esquever...
(controlen-se, eles vão pensar q sou louca..)... pronto elas estão sob controle e eu me vou...
até a próxima!!
Bjoux"
Fêêêê | 12.01.04 - 6:03 pm

"Queria agradecer mais milhares de vezes por você existir Edmund. Vc faz a alegria e valer a pena de todas as minhas passagens pela net."
gabriel | 12.02.04 - 4:22 pm

postado por: EDMUND BONAPARTE 5:09 PM






Sexta-feira, Novembro 19, 2004

Pequena Peça de Lógica Impura II

A vaca, animal pacífico, muge.
O leão, besta feroz, ruge.

Conclusão: Cuidado! Atrás de uma simples letra pode se esconder um predador.

postado por: EDMUND BONAPARTE 10:30 PM






Segunda-feira, Novembro 15, 2004

Sem noção


Andei sem noção alguma. Levantei da cama e em poucos passos acertei em cheio a parede. Acordei sem noção de distância.

O cão que se rasgava em latidos na casa ao lado, presumi que sofria de Latinismo. Pensei sem noção de significado.

Vi um padre na rua, achei que precisava de uma benção. Pedi uma unção, uma das grandes, que me curasse da falta de noção, pedi-lhe uma unção máxima. Pedi-lhe a extrema unção. Agi sem noção religiosa.

Faminto, entrei sem perceber em um restaurante caríssimo, entrei no primeiro que vi, e comi como um rei. Comi sem noção de preço.

E no chique restaurante paguei o pato. Paguei também todos os outros animais e vegetais que devorei.Paguei sem noção de valor.

Trabalhei muitas horas extras para saldar minha dívida. Trabalhei sem noção de tempo.

Sem noção do que fazia, fui viajar. Viajei sem noção de destino.

Escalei montanhas, sem noção da altura. Atravessei rios repletos de crocodilos, sem noção do perigo. Tentei voltar para casa, mas não tinha noção de onde morava.

Caminhei pela cidade, sem noção do cansaço. Tentei entrar em um táxi que vi, mas era um táxi de brinquedo. Agi sem noção de tamanho.

Finalmente encontrei minha casa. Demorei duas horas para colocar a chave na porta. Havia perdido a noção de profundidade.

Caí na cama e a ocupei totalmente, sem noção de espaço. Dormi por dias, sem noção do meu sono.

Acordei e escrevi esse texto. Sem noção de ridículo.

postado por: EDMUND BONAPARTE 12:22 PM






Domingo, Novembro 07, 2004

Tratamento de Choque

Eventualmente dispenso algum tempo para conversar com meus móveis que, afinal, são seres vivos, como qualquer animal, vegetal ou mineral que perambula pela face da Terra, acima dela ou em seu interior.

Esses dias resolvi conversar com meu televisor, pois o problemático aparelho continuava com um terrível problema de auto-imagem (ele é um televisor atravessando uma aparente crise de meia-idade). Disse-me ele:

-Oh, Edmund! Sinto-me um traste. Não vejo sentido em continuar assim. Acho que perdi a sintonia com este mundo. Se ao menos eu fosse um televisor de plasma...

Pobre máquina! Tinha que dizer alguma coisa para animá-lo (*):

- Bem, caro amigo, ao menos você...deixe-me ver...hã...ao menos você não é valvulado! - Disse, realmente tentando ajudar.
- É isso, Edmund! Eu sou uma obsolência viva, um anacronismo que ainda teima em persistir. Vá para o seu computador com monitor de tela plana! Dessa sucata aqui não há mais o que se possa tirar!

Desconfiei que ele andava assistindo muito daquelas medonhas novelas mexicanas ultimamente, mas isso eu não iria suportar. Estava na hora de cortar essa onda! Obviamente, eu precisaria encontrar um meio eficaz de persuadí-lo, eu precisava de um canal de comunicação:

- Deixe de drama, caro televisor, sua vida até que é muito boa!
- Drama?? - Respondeu - Minha vida é um suspense atrás do outro! Perdi meu brilho há tempos, minha vida não tem mais cor, é só um grande contraste! Minha vida é, em suma, um enorme e mal feito filme de terror sem fim!

A essa altura, minha tolerância já demonstrava claros sinais de intolerância.
-Pois bem, caro televisor, então vamos dar um fim nessa história sem fim. Irei trocá-lo por uma torradeira nova, pois se o seu objetivo é torrar, que seja então pães, e não minha paciência.- Às vezes é preiso ser muito enérgico com esses eletrodomésticos.

Nesse momento, a vida inteira do desajustado televisor passou por sua cabeça. Quinhentas e setenta e quatro sessões da tarde, mil seiscentos e vinte e dois telejornais, mil setecentos e trinta e oito documentários, dois mil cento e cinquenta e três desenhos animados, seiscentos e quarenta e dois programas de entrevistas, entre outra infinidade de programas que todo televisor acaba por passar.

Por vários minutos ficou o televisor ali, parado (como de fato normalmente ele fica, coisa que muito me agrada), aparentemente meditou bastante no que aconteceu e disse:

-Já é tarde, Edmund, acho que já está na hora de descansar. Amanhã é um novo dia e quero estar bem antenado.

Coincidência ou não (quase certo que não), ele voltou a funcionar corretamente. Soube que andou fazendo amizade com o aparelho de videocassete e que costuma ficar várias horas vendo filmes antigos e dando risadas. Menos mal, pois, pessoalmente, não sou um grande fã de torradas.

Entretanto, atualmente o que de fato vem me preocupando é essa aparente tendência à cleptomania que meu aspirador de pó vem apresentando. Estou pensando muito seriamente em ir morar no mato, coisa que somente não faço pois detesto morar no mato.




(*) Se eu tivesse escrito "tinha que dizer alguma coisa para o animar", eu poderia ser confundido com um caipira mal-educado, o que tiraria completamente o sentido do texto.

postado por: EDMUND BONAPARTE 11:35 PM






Terça-feira, Novembro 02, 2004

Tempo de Mudanças

Minha amada namorada me deixou...

Na realidade, ela deixou este blog e não a mim, coisa que me deixou triste, dentro da felicidade dela não ter me deixado e feliz, dentro da tristeza dela ter deixado este blog.

Obviamente que tal partida teve seu motivo. Minha amada Josephine, atirada nesta terra de loucura no final do ano passado, veio, com sua beleza e suavidade salvar este blog da inanição à qual eu o expunha, devido às intensas e fustigantes atividades reais e imaginárias (nunca consigo diferenciá-las) que eu criei ou que criaram para mim neste mundo.

Este blog teria perecido amargamente, sendo lançado nas sombras dos tempos, não fosse essa formosa interventora. Sim, Josephine salvou-me de enviar este blog, em uma das minhas crises de dupla personalidade, ao vácuo do esquecimento em um nano-segundo, quando impediu-me de apertar o famigerado "Deletar este blog" (na realidade era Sigmund, minha outra personalidade, quem desejava deletá-lo, coisa que vem tentando fazer há muito tempo).

Agora que minha medicação eu venho tomando com fiel regularidade e agora que Sigmund, minha alucinada outra personalidade, encontra-se sob controle, entretido com alguns quebra-cabeças que comprei, Josephine sentiu-se segura para colocar este diário novamente em minhas mãos.

Josephine novamente está livre, livre para fazer seus afazeres e criar seu próprio blog, sem medo de que eu suma e reapareça somente dentro de várias semanas, saído de um armário por aí, vindo de uma abandonada fábrica de salsichas ou cuspido da Dimensão-Zeta, como de fato e de verdade me aconteceu (quem duvida que veja nos arquivos e comprovará, com absoluta certeza, a veracidade dessas inverossímeis aventuras).

Agora, minha adorada Josephine ButterFly criou (e está tratando com todo o carinho que um ser vivo merece) seu próprio blog (/www.manteigavoadora.blogger.com.br), no qual tenho certeza que será muito feliz e que se encherá de satisfação.

Eu, como um grande intrometido que sou, certamente intrometerei-me lá de vez em quando, já que minha idolatrada namorada cometeu o irremediável erro de me passar a senha do blog.

Certamente serei bastante inofensivo, mas é claro que não posso responder por Sigmund.

Um fortíssimo abraço e um indescritível beijo para você, minha amada, idolatrada, salve, salve, namorada Josephine !

postado por: EDMUND BONAPARTE 11:21 PM






Sexta-feira, Outubro 29, 2004


Em Busca de um Norte



Esses dias me disseram que eu deveria ser menos alucinado, que eu deveria definir um norte em minha existência, pois eu andava muito desnorteado nesses últimos todos os anos de minha vida.

Pensei profundamente nessa questão e cheguei à conclusão de que talvez encontrar um norte não fosse tão má idéia. Pode ser até uma não tão boa idéia, o que semanticamente dá na mesma.

Pus-me então imediatamente em busca de uma bússola. Encontraria meu norte nem que tivesse que percorrer todos os pontos cardeais e colaterais, nem que tivesse que subir na montanha mais alta ou descer ao mais profundo dos abismos. Sinceramente, eu esperava encontrar minha bússola em algum estabelecimento próximo de minha casa, de preferência bem próximo, pois já era tarde e eu não queria perder meu programa favorito, "O incrível mundo do vácuo absoluto" (1) .

Para a minha infelicidade, eu não sabia por onde começar, então, a princípio, não comecei, coisa que pouco depois tratei de não continuar (2). Perguntei então a várias pessoas que passavam na rua onde eu poderia comprar uma bússola. A absoluta maioria nem sequer parou, alguns pararam, olharam-me com cara de "louco" e foram embora sem responder à minha questão.

Ficou-me evidente que a maioria das pessoas não nutre grande afeição pela educação e pela cortesia, mas não deixei que tal carência de valores sociais me impedisse de atingir meu orientado objetivo.

Muito tempo depois consegui obter uma resposta de uma educada velhinha, que não perdeu a oportunidade de me contar suas histórias de quando foi bandeirante em sua juventude. Ouvi. Afinal, o que eram duas horas e quarenta e sete minutos para quem não teve um norte em toda a sua vida?

Como já era quase meia-noite, resolvi ir para casa dormir. Pela manhã sairia novamente em busca de minha bússola. Lamentei mesmo foi ter perdido "O incrível mundo do vácuo absoluto".

Pela manhã saí em direção ao sul, eu acho (3), em busca do meu norte. Havia recebido da encantadora velhinha a informação de que poderia encontrar minha bússola em qualquer tabacaria de qualquer shopping center.

Tal informação me deixou bastante admirado pois quem, eu me perguntei, quem poderia imaginar que se vende outras coisas a não ser tabaco, nas tabacarias? Eu imaginaria! - Eu me auto-respondi a mim mesmo de forma clara e definitiva - Pois de outra forma, somente venderiam drogas nas drogarias, bombons nas bombonières e tintas nas tinturarias.

Achei plausível. Dirigi-me ao primeiro shopping center que encontrei e à primeira tabacaria que lá dentro descobri. Havia finalmente encontrado o esconderijo das bússolas. Após a euforia inicial (4), novamente a descrença e desânimo se abateram em minha mente. Em cima de uma estante de vidro, em meio a dezenas de outros objetos em busca de um dono, havia uma dúzia de bússolas, desde as pequenas e tímidas, até as grandes e cheias de penduricalhos.

Entretanto, o que me desiludiu foi o fato de que cada uma apontava para uma direção diferente. Não havia entre aquelas bússolas sequer duas que concordassem em seus instintos magnéticos.

Pobres bússolas, nem mesmo elas tinham um norte. Lamentável.

Lembrei-me então de uma das histórias da velha bandeirante, na qual ela havia se perdido em uma floresta lá nos Estados Unidos em um desses encontros internacionais de bandeirantes. Disse-me ela que descobriu o caminho de volta simplesmente vendo onde os musgos cresciam, eles se acumulam sempre no lado norte das árvores. Pelo menos por lá, já que por aqui parece-me que há musgos por todos os lados das árvores, o que me faz crer que nem nossos musgos têm seu norte.

A desolação sobreveio. Sentei-me em um banco da praça e fiquei ali, olhando para o chão, sentindo pena de mim mesmo e me torturando com pensamentos de baixa auto-estima por ter falhado em minha tão importante missão.

Não aguentei mais a pressão e gritei:
- Macacos me mordam, pelas barbas do profetas e por todas as outras interjeições de espanto e indignação, onde raios fica o norte?????????

Nisso, um mendigo que estava deitado no banco ao lado, olhou para mim e com uma cara de quem falava a coisa mais óbvia do mundo disse:
- Como? Você não sabe? Nunca viu um livro de geografia? Todo mundo sabe que o norte é para cima!

Olhei para cima e "tóim", caí em mim. Procurei a resposta em todos os lugares e ela estava ali, do meu lado, toda esfarrapada em cima de um banco de praça. Meu norte era o céu, as nuvens, a luz do dia, enfim, a liberdade de olhar para outro lugar que não fosse o chão. Simplesmente o que eu já sabia e havia esquecido quando disseram que não era bom o suficiente. Esqueci meu norte enquanto tentava encontrar o norte dos outros.

Voltei para a casa, olhando para as nuvens pintadas de pôr-do-sol e assisti, mais feliz do que nunca, a sete episódios consecutivos de "O incrível mundo do vácuo absoluto".


Lição da história (lição sim, pois quem sou eu para ficar aqui ensinando moral para os outros): Nunca subestime a sabedoria que há em uma máquina de refrigerantes quando ela lhe diz: "Insira a cédula com a face para cima".


(1) Aparentemente ninguém mais, além de mim, conhece esse programa, o que me faz presumir que ele é somente uma alucinação fruto de minha imaginação. Pensando bem, ele pode também ser somente uma imaginação fruto de minha alucinação. Mas o que realmente interessa é que é muito bom e começa religiosamente lá pelas vinte e uma horas em ponto, mais ou menos.

(2) Tratei de não continuar a não começar, ou seja, descontinuar o não-começamento daquilo que eu deveria deixar de descomeçar.

(3) Digo "eu acho", porque se tivesse certeza de que era o sul, saberia com igual certeza onde ficava o norte, do outro lado, como qualquer criança da quarta série do ensino fundamental muito bem sabe (e como eu viria a descobrir muitos anos após a quarta série do ensino fundamental). Restaria somenta a dúvida de onde ficava o leste e o oeste, mas parece que esses pontos cardeais não se comparam ao norte quando se fala em promover a felicidade humana na Terra.

(4) Coisa que tratei de controlar devidamente com a minha medicação.

postado por: EDMUND BONAPARTE 5:30 PM






Terça-feira, Outubro 26, 2004

Pequena Peça de Lógica Impura


Medo de avião
É medo de voar
Medo de voar
É medo de altura
Medo de altura
É medo de cair
Medo de cair
É medo de se machucar
Medo de se machucar
É medo de sofrer
Se quem ama sofre
Quem tem medo de amar
Tem medo de avião.

postado por: EDMUND BONAPARTE 7:35 PM






Segunda-feira, Outubro 25, 2004

Diretamente de nosso departamento de mitos paupérrimos e de alegorias miseráveis:

"FÁBULAS ALUCINADAS"

O Mendigo e a Madame



Certo dia, uma madame daquelas bem finas, com direito a nariz empinado e um gatinho sem pêlo à tiracolo, passeava nas belas ruas nos arredores de sua mansão. Um mendigo que por ali mendigava (normalmente mendigar é a principal ocupação de um bom mendigo), ao ver a chique senhora passeando, arriscou pedir-lhe um dinheiro, já que quem não arrisca não petisca e quem não chora não mama:

- Pô favor, sinhora! Tem uma esmolinha prá dá pra mim? Não como tem três dias!

A madame, como se ouvisse um absurdo, disse:
- Oh, céus! Meu jovem, há três dias não come? Pois trate de comer o quanto antes! Um homem adulto precisa de pelo menos duas mil calorias por dia e certamente esse seu jejum não lhe fará bem! - E foi saindo como se grande bem tivesse feito.

-Peraí, sinhora! Não vai me dá nada, não?- Indagou o mendicante indivíduo.
- Obviamente que não, meu jovem! Deves antes de tudo tomar um belo banho, colocar uma roupa limpa e decente e procurar um emprego. Onde já se viu, ficar deitado aí no chão, no meio da rua, revirando o lixo, não tens vergonha?
- Vergonha eu tenho, o que eu não tenho é dinheiro, madame. - Respondeu o mendigo.

- E como é que vais ter, se ficas aí o dia inteiro? Precisas é de mais ânimo, mais entusiasmo. Vamos, diga para si mesmo: "Eu sou feliz, a vida é bela e vou alcançar tudo o que desejo". Repita isso sempre que se sentir abatido ou sem esperanças. Aconselho porque realmente funciona comigo. É ma-ra-vi-lho-so. Tenha um bom dia. - E foi tomando o seu caminho novamente.

- Peraí, peraí, peraí! Só me diz uma coisa, por que a sinhora acha que eu tô aqui na rua, revirando o lixo? Por um acaso acha que eu gosto? - Interpelou, sarcasticamente.

-Pois bem, meu jovem, já que me perguntas, devo dizer que sim. Conheço bem hippies como você. Brigam com a família, ficam por aí fumando cocaína e cheirando maconha, depois acabam na rua, chafurdando no lixo e roubando a paz de espírito de nós, honestos cidadãos. Por isso te digo que é melhor você deixar essa vida. Vá ler alguns livros de auto-ajuda, existem alguns ma-ra-vi-lho-sos, e vá colocar essa tua cabecinha em ordem.

- Por um acauso a sinhora não qué mi ajudá mi dando uns trocado pra quentinha? - Tentou, já desesperançoso, o mendigo.
- Certamente que não, meu jovem. "Nunca dê o peixe, ensine a pescar!"- Exclamou a madame, com pose de infinita sabedoria.
- Mi ensina a pescá intão, sinhora! - Vociferou o indigente.
- Isso é só uma metáfora, meu jovem, é só uma metáfora. E mesmo que não fosse, sou vegetariana e apóio o Green Peace. Jamais faria mal a um inocente ser da natureza. Ademais, devo ir, pois sou aguardada em uma festa beneficente no "Lions".

O mendigo, sem palavras, somente pôde observar a madame que ia embora dizendo:
- E veja se te emendas, meu jovem, veja se te emendas!

Moral: É mais fácil enfiar um camelo pelo furo de uma agulha do que convencer um abonado a abrir a mão.

postado por: EDMUND BONAPARTE 11:10 PM






Sexta-feira, Outubro 22, 2004

O Perigo


O perigo, em linhas gerais, é um sujeito muito misterioso. De certa forma ele é bem misterioso em linhas específicas também.

Ele sempre está onde ninguém espera que esteja. Pode-se dizer que ele é um grande intrometido, um penetra desordeiro, um terrorista disfarçado de criancinha.

É bem verdade que o perigo muitas vezes está onde todo mundo espera que esteja, e ainda assim existem aqueles que vão lá dar uma encarada nele e, de vez em quando, quebrar a cara.

Esses lugares, onde o perigo costuma trabalhar sem disfarce, freqüentemente estão bem sinalizados com uma plaquinha medonha, quase sempre com o desenho de uma caveira e com uma frase ameaçadora do tipo "RISCO DE MORTE".

Porém, aos mais desavisados, o perigo ainda tenta abocanhar colocando placas de "RISCO DE VIDA" nos lugares onde trabalha, fazendo com que indivíduos sedentos por mais vida (e com essa crise toda quem resistiria se arriscar a ganhar um pouco mais de vida?) acabem por encontrar a morte, o que é o fim da picada (mesmo que a morte não seja por picada).

Sabendo dessas coisas e temendo aquelas outras tantas que minha ignorância eficientemente abrange, passei a estudar o perigo na tentativa de evitar o perigo de encontrar o perigo.

Infelizmente ele parece estar em todos os lugares. Esses dias, enquanto caminhava, ouvi alguém dizer "é aí que mora o perigo!". A conversa não era comigo e somente ouvi aquela frase no ar, mas não perdi tempo e tratei logo de anotar corretamente o endereço do perigo e de traçar uma rota mais segura.

Como já ouvi muitas pessoas dizendo a mesma frase em diversos lugares, acredito que o perigo seja, antes de tudo, muito rico, já que parece ter residências espalhadas por esse mundo afora.

Entretanto, apesar de todo o perigo, cheguei à conclusão de que o melhor a se fazer é não pensar muito no perigo, só o suficiente para não esbarrar nele, pois caso se pense demais, de forma obsessiva ou maníaca compulsiva, corre-se o risco de se enlouquecer abrupta e absolutamente. E isso, por si só, já é um grande perigo.

postado por: EDMUND BONAPARTE 6:30 PM






Quarta-feira, Julho 21, 2004

Conversa Para Boi Dormir

Hibernei, é bem verdade. Não imaginei que algo assim poderia acontecer comigo, mas, após terminar de ler o último post de minha amada namorada Josephine, estranhamente comecei a perder as forças, os olhos começaram a ficar pesados, tudo me parecia lento, sem forma e vazio, e a vontade de encontrar um lugarzinho macio e quentinho começou a tomar proporções cósmicas em minha mente.

Para ser totalmente sincero, era só nisso que eu conseguia pensar, em dormir. Saí então para procurar o perfeito abrigo para o meu psicosomatizado corpo.

Tentei, primeiramente, a minha cama, visto ser o local mais próximo e de fácil acesso. Infelizmente uma obra de construção de um edifício que se instaurou no terreno vizinho ao meu, e o enlouquecedor barulho dela proveniente, impossibilitou de forma espantosa qualquer tentativa mais empreendedora de entrar em meu tão ansiado estado de letargia.

É óbvio que ali eu não poderia continuar. Minha única chance era sair pelo mundo à procura de meu berço esplêndido. Comecei pela quadra de minha casa, mas não havia coisa alguma por aqui que se parecesse minimamente com um agradável leito hibernístico.

Não desisti, pois um lunático jamais desiste. Exceto quando cansa de tentar.

Mas eu não estava cansado. Na realidade, eu estava cansado. Estava mais do que cansado, estava exausto. E se não encontrasse logo um lugar onde repousar certamente desfaleceria desfalecerantemente onde quer que fosse, o que seria bastante constrangedor, se eu estivesse consciente para perceber. Minha obsessão por hibernar estava me tirando o sono.

Por fim, pouco antes de perder a consciência, encontrei em uma fábrica de móveis o elemento que supriu de forma admirável a minha inercial necessidade.

Enfiei-me dentro de um enorme armário, o qual forrei previamente com alguns edredons que encontrei no local. Tomei emprestado também um ortopédico travesseiro, para que minha hibernação não viesse a prejudicar minhas costas. E dormi.

Acordei na Bolívia, mais precisamente em uma loja de La Paz, quando um casal que fazia compras me tirou do profundo torpor ao iniciar uma desmesurada gritaria.

Devo admitir que eu deveria ter tomado mais cuidado ao escolher o armário onde enfiar meu alucinado corpo, visto que o interior de móveis para exportação realmente não é o melhor lugar para hibernar.

Mas apesar de estar em La Paz, decidi não perder a paz e encontrar meu caminho de volta. Resolvi arranjar um trabalho temporário para suprir minha carência monetária, coisa que foi relativamente fácil. Bastou pegar uns pacotes estranhos de um pessoal bastante nervoso e levá-los para outro pessoal igualmente bastante nervoso que rapidamente adquiri o dinheiro para minha passagem de volta.

Quanto ao povo nervoso, aconselhei-os a não mais andarem armados, visto que arma é indubitavelmente um perigo para o próximo e para si mesmo, e que eles seriam muito mais felizes sem todas aquelas metralhadoras, rifles e escopetas.

Deixei-os então e retornei para Porto Alegre o mais rápido possível. E posso agora falar com conhecimento de causa que, mesmo sem entrar em maiores teorias, hibernar cansa demais.

E boa noite.

postado por: EDMUND BONAPARTE 6:24 PM






Quarta-feira, Julho 14, 2004

Considerações Expositivas Semiconclusivas E Potencialmente Evasivas


Eu, seguindo a definição de um "blog diário", deveria postar aqui hoje, perfazendo um alucinado revezamento de posts com minha amada namorada Josephine. A bem da verdade, eu deveria ter postado ontem, coisa que somente engorda mais a minha não magra ficha corrida de ausências não premeditadas.

Tais acontecimentos lamentáveis só não me surpreendem profundamente por não serem nenhuma surpresa pra mim.

É claro que, se eu for extremamente rigoroso, constatarei que algumas ausências foram, de fato, premeditadas, mas então corro e recorro(1) ao artigo vinte e um, parágrafo cinco, do Manual Internacional Do Lunático Nato, que diz:

"Fica proibido a qualquer lunático, em qualquer grau de lunaticidade, autoproclamar-se culpado por crimes de ausências premeditadas, salvo se isso lhe encher de satisfação e profundo regozijo".

Como realmente não gosto de não deixar de não vir aqui e de não escrever nada, nunca e jamais, posso dizer que tal parágrafo, habitante em tal artigo, me cai como uma luva e me dá uma mãozinha.

Agora, sem realmente querer mudar de assunto, mas impulsionado por uma dúvida terrível, tenho que dizer que não entendo essa expressão "me cai como uma luva". Todas as luvas nos caem como uma luva?

Eu, particularmente, já passei por várias situações em que luvas não me caíram como uma luva. Algumas nem caíram, ficando presas em meus dedos já de início.

Pode-se dizer que esse é o jeito que as luvas caem, às vezes folgadas, outras vezes nem entrando e de vez em quando, e por pura sorte, encaixando como acho que todas as luvas gostariam de se encaixar.

Com certeza é muito triste ser uma luva que não se enquadra na vida, vivendo humilhada, de crista baixa ou mesmo deprimida e escondida dentro de uma gaveta com cheiro de mofo. Dessas pode-se realmente entender quando dizem que sentem um vazio interior.

As minhas luvas eu trato com profundo respeito, usando-as quando necessário e tentando fazê-las entender que nem sempre é possível utilizá-las e que no verão é melhor que elas hibernem, digo, invernem, no porta-luvas do automóvel, pois é lá ou na gaveta, não tem meio termo, e dos males o melhor(2).

Falando em porta-luvas, parece-me muito interessante que tal espaço tenha esse nome, já que é muito raro ver alguém guardando luvas no porta-luvas. Normalmente costumam guardar a frente removível do CD-Player, coisa que qualquer aprendiz de gatuno já está careca de saber, só perdendo para a opção de guardar debaixo do banco.

Portanto, depois dessa magnífica e totalmente elucidante explicação de porque não postei ontem e hoje, posto hoje, reduzindo em cinqüenta por cento a minha culpa.

Vou ficando por aqui, pois chove e os raios abundam. E se um raio cair em meu computador certamente não me cairá como uma luva.




(1) Recorro no verbo recorrer naquele sentido de "solicitar auxílio de", e não no de correr novamente, mesmo porque estou muito cansado hoje para sair correndo e recorrendo por aí.

(2) Digo o melhor porque nem sempre o menor mal é o melhor e muitas vezes o pior vem disfarçado de menor, como numa versão deturpada da máxima que diz que os melhores perfumes estão nos menores frascos.

postado por: EDMUND BONAPARTE 9:32 PM






Domingo, Julho 11, 2004

Esqueço, portanto acho que existo

Olhar para trás é um exercício precioso. Não digo somente no sentido literal, como quando suspeitamos que algum meliante nos seca com olhos predatórios. Refiro-me a um sentido menos rigoroso, como olhar para os anos passados.

Naturalmente que olhar para tais períodos deve ser feito com um objetivo certo, pois somente recordar, sem nenhuma intenção maior do que somente recordar, pode ser bastante pernicioso, principalmente quando tendências melancólicas mais profundas habitam o indivíduo rememoriante.

O grande segredo que existe nesse expediente é, então, a comparação. Sim, recordar não para se entorpecer com os momentos de triunfo ou se descabelar com o que de ruim se viveu, mas para simples e puramente pesar os dias de hoje com os de ontem e, se o resultado for negativo na escala de contínua melhoria, buscar detectar onde foi perdida a correta trilha, onde nos separamos de nosso devido destino, e tentar novamente levar nossos passos ao correto rumo, por onde todas as alegrias e as mais profundas e duradouras emoções possam novamente fluir por nossos atrofiados sentidos e onde todas as luzes dos eternos astros repousantes em nossa celeste abóbada venham nos mergulhar em um banho mágico de euforia e glória, num contínuo e inebriante pulsar de cores e sensações.

Sim, tudo com bastante lirismo mesmo, porque se não é para se buscar viver com lirismo então que nem se perca tempo, que se vá trabalhar por um dólar ao dia em uma fábrica de quinquilharias na China.

Recordo-me de um presidente brasileiro, não sei se o Figueiredo, o Sarney ou alguma outra entidade das sombras (a verdade é que a ordem das pragas não altera o impacto ambiental), que disse, em seu derradeiro momento de gerência governamental, que nós sentiríamos saudades de sua pessoa (aqui ponho a palavra "pessoa", já que procuro sempre dar esse mínimo status a qualquer ser humano, mesmo que ele faça de tudo o que é possível para desmerecê-lo). Obviamente que ri do que me pareceu somente uma presidencial demência.

Profética demência.

O estado geral das coisas realmente piorou em muitos sentidos, principalmente para quem sentiu. Para quem não sentiu provavelmente não piorou, ou, se piorou, não foi o suficiente para sentir, o que, de certa forma, foi de brutal insensibilidade, visto que a maioria sentiu. Ou não.

Mas é esse labirinto de lembranças e profecias óbvias (visto serem os profetas os próprios promovedores das desgraças da coletividade) que deveria nos servir de fundamento para futuras escolhas, tanto no nível pessoal quanto no coletivo, para que o nosso coletivo não fique muito pessoal e para que o pessoal não bagunce o nosso coletivo.

Mas de lembrança, coletivo e pessoal eu só sei que o coletivo de lembrança não está em minha memória, que a lembrança do pessoal é muito coletiva e que a memória coletiva é sempre muito pessoal. Portanto façam o favor de esquecer tudo o que eu escrevi aqui, caso não seja um pedido muito pessoal querer que essas lembranças coletivas saiam de suas memórias.

postado por: EDMUND BONAPARTE 12:28 AM






Quinta-feira, Julho 08, 2004


Diretamente Do Nosso Departamento De Mitos Medonhos E Alegorias Esteticamente Prejudicadas:


"FÁBULAS ALUCINADAS"


O Patinho Horrendo



Nasceu então o patinho. E todas as aves aquáticas palmípedes lamelirrostras da região (pertencentes na maioria à família dos Anatídeos, especialmente as de grande porte) foram visitar a jovem mamãe e seu mais novo rebento, na intenção de perfazer todas aquelas manifestações culturais relativas aos acontecimentos memoráveis que todas as aves educadas e sedentas por bons conceitos na sociedade devem conhecer profundamente e exercitar com maestria (mesmo quando por motivos fúteis e a contragosto).

Mas o que ninguém esperava era encontrar, em vez de um belo e delicado patinho recém nascido do ovo, um estranho, desengonçado, desajustado, incongruente e desproporcional (entre muitas outras qualidades medonhas) ser que lhes ofuscava a vista e fazia seus estômagos borbulharem em clorídrica acidez.

O silêncio foi constrangedor por intermináveis segundos.

- Que patinho horrendo! - Cochichou Dona Patanha no ouvido de sua amiga de fofocas, Dona Gancilda.

Falando como louca (coisa que era lhe bastante fácil, visto ser realmente louca) igualmente cochichou:
- De fato, amiga Patanha, mas lembre-se de que se há males que vem para o bem, há males que vêm para o mal. E se é mesmo assim, há coisas boas que vem para o bem, e, por pura lógica aristotélica, há coisas boas que vêm para o mal. E isso me parece muito mau... muito mau... muito mau... muito mau.

E assim, muito mal recebido, foi o pobre patinho horrendo. Obviamente não foi agredido, sobretudo nos torturantes momentos daquela desalentadora apresentação, onde todos simularam, com grandiosa alegria, intensa simpatia pela nova cria que se unia à comunidade dos animais, mas não houve um único dia na vida do malfadado patinho em que não sentiu a profunda rejeição em absolutamente tudo o que fazia ou dizia.

Seus primeiros dias de vida se mostraram um desafio às suas habilidades naturais. O patinho horrendo, cujo nome de batismo seria Felix Patrasco, caso tivessem tido coragem de batizá-lo, possuía uma voz tão dissonante, disforme, pouco acústica, enervante, agônica e molesta, que seus estrídulos eram ouvidos a muitos e muitos trotes de distância. Mais ou menos a distância mínima que todos queriam manter dele. E nesse estado psicológico lamentável vivia Félix nesse mundo.

Era de costume em seus solitários dias ver sua mãe e seus irmãos nadando no lago. Sempre se sentia compelido a juntar-se a eles. Obviamente jamais levava aquele impulso a cabo, visto não saber nadar. Sim, Felix Patrasco não sabia nadar. Muito pior até, Félix Patrasco não possuía a menor idéia de como nadar. Olhava para os demais seres no lago e assombrava-se com tais demonstrações de flutuabilidade e com a sua aparente incompetência natatória.

Sua vida tornava-se cada dia mais angustiante. Não suportava mais aqueles olhares irônicos, os cochichos debochados dos demais patinhos e todos aqueles requintes de crueldade com que a sociedade patal costuma tratar os indivíduos que estão fora do padrão socialmente aceito.

Irou-se.

Depenou-se metaforicamente de inconformismo e, em sua encrudelecida mente, indignou-se furiosamente com aquela situação patológica:

- Patota de cretinos! - resmungou - Eles me pagam! Hei de ser o melhor pato que já nadou nessa porcaria de lago!

E nesse propósito, enlouquecido de asco, atirou-se na água a patinhar.

Afundou como uma pedra...com extrema dificuldade ergue a cabeça para fora da água; olhos arregalados, bico aberto de pavor, submerge novamente...calma no lago...algumas ondas e somente as patas são visíveis para fora, patas frenéticas...outro mergulho...segundos de silêncio...esguichos de água, asas batendo em visceral desespero, um corpo se contorce, cabeça, asas, pés e tronco se revezam em infernal balé, como se rolassem ribanceira abaixo e por fim afundam...

Todos vendo a dantesca cena exclamam assustados:

- Santo Donald! O patinho se afogou!!!

O reverente silêncio se instaurou entre os bichos, mesmo entre os que o detestavam, que eram a absoluta maioria. Agora não era mais hora de denegrir a imagem do feioso pato. Agora não, nesse momento a solidariedade era a melhor reação, e então gritavam:

- Pobre patinho! Que coisa terrível aconteceu com nosso amigo!

Nesse momento, com um último fôlego, o horrendo patinho põe o biquinho para fora d'água e grita:

- QUERO MAIS É QUE VOCÊS VIREM PATÊ, SEU BANDO DE...blug...glub...

E afunda.



Moral: Filhotinhos de urubu não sabem nadar.

postado por: EDMUND BONAPARTE 7:47 PM







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